quarta-feira, 1 de julho de 2015

Santa Sé: Acordo com a Palestina e o Processo de Paz no Médio Oriente

Santa Sé: Acordo com a Palestina e o Processo de Paz no Médio Oriente

ENTREVISTA – O secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, voltou a falar, durante uma entrevista ao Vaticano Insider no dia 11 de Junho de 2015, a Israel, ao processo de paz, ao antissemitismo e à radicalização islamita.

Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da “Nostra Aetate”, terem revolucionado as relações católico-judaicas e inter-religiosas e 20 anos depois do Acordo Fundamental que inaugurou uma nova era das relações diplomáticas entre o estado de Israel e a Santa Sé, o Cardeal Pietro Parolin, personagem chave da diplomacia do Vaticano, volta às questões importantes para o processo de paz no Médio Oriente: as relações Vaticano-Israel e Vaticano-Palestina, a luta contra o crescente anti-semitismo, a responsabilidade dos chefes religiosos e dos muçulmanos, em particular, na luta contra a radicalização islamita em todos os níveis e, por fim, os esforços do Vaticano no encorajamento da paz no Médio Oriente.

O Cardeal Parolin sublinhou como a Santa Sé, por várias vezes, fez um apelo aos israelitas e palestinos para que tomassem “decisões audaciosas para a reconciliação e a paz” Os dois povos devem, antes do mais, resolver os seus problemas e as dificuldades internas porque, infelizmente, há alguns que parece não quererem a paz ou que se contentam em manter o stato quo. Espero, no entanto, que a maioria dos cidadãos e dos grupos seja a favor da paz. O apoio da comunidade internacional é necessário para se restabelecer a confiança e facilitar o diálogo entravado por uma história de luta e de confrontos que deixaram feridas profundas. O ponto de referência deve ser para todos os expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 e nas resoluções da ONU que abordam o problema.

A propósito da futura assinatura do acordo Santa Sé/Estado da Palestina, o Cardeal sublinhou que este último não era um obstáculo ou uma iniciativa desfavorável ao processo de paz entre Israelitas e Palestinos. Muito pelo contrário, apesar de ser um acordo essencialmente no âmbito da vida da Igreja, ele é pensada para o bem de toda a sociedade. Com efeito, um acordo pelo qual o Estado Palestiniano se compromete a reconhecer os direitos fundamentais, inclusivamente a liberdade de religião, a consciência desta é uma etapa que contribui para o desenvolvimento de um país que será democrático e que respeita as diferentes realidades religiosas. A Santa Sé, espera igualmente que o acordo possa, de alguma maneira, contribuir para uma paz duradoura através de uma solução com dois estados, o que não poderá ser feito em detrimento dos legítimos direitos dos Israelitas e dos Palestinos que se devem considerar não como inimigos ou adversários, mas como vizinhos e, diria mesmo, como amigos e irmãos, desejosos de encontrarem uma solução negociada para o bem das duas partes”.

No entanto, o Cardeal lembrou que “não compete à Santa Sé ter uma estratégia política para a resolução do conflito. A Santa Sé indica os princípios gerais e apela ao diálogo e à paz”. Voltou a lembrar a peregrinação do Papa Francisco à Terra Santa, durante a qual o Papa evocou a paz como um dom de Deus e um compromisso do homem. Esta peregrinação foi seguida de uma iniciativa do Vaticano convidando os presidentes israelita e palestiniano a rezarem pela paz, na presença do Patriarca Bartolomeu.

Mais de 20 anos depois da chegada de uma missão diplomática importante da Santa Sé a Israel, chefiada pelo Cardeal Jean-Louis Taurin, o Cardeal Parolin evocou igualmente as relações diplomáticas entre Israel e o Vaticano.

“Ao longo dos últimos anos, um certo número de membros da Igreja, encarregados de diversos ministérios da Santa Sé vieram à Terra Santa por diversas razões, como o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus.
No que diz respeito às relações entre a Santa Sé e o Estado de Israel, gostaria de lembrar que celebrámos recentemente o 20º aniversário das relações diplomáticas, fruto do Acordo fundamental entre as partes assinado a 30 de Dezembro ed 1994. Percorremos um longo caminho de reforço dos nossos laços de mútua amizade e de diálogo. Outro fruto do Acordo fundamental: o acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja, datada de Novembro de 1997. Um outro relativo à fiscalidade e à propriedade, denominado “Acordo económico” está em vias de conclusão depois de anos de negociações, e espero, será assinado em breve”.
A propósito do Acordo Fundamental de 1993 e do Acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja de 1997, apesar de terem sido todos ratificados, mas não foram ainda incorporados no direito interno israelita, o Cardeal sublinhou que ”a Santa Sé levantou a questão por diversas vezes e recebeu a garantia das autoridades israelitas que iriam tentar resolver o problema”.
No respeitante às relações com o povo judeu, o Secretário de Estado falou do “desenvolvimento muito positivo das relações judaico-cristãs sobretudo a partir do Consílio Vaticano II e da declaração Nostra Aetate de 28 de Outubro de 1965 (…). Um gabinete especial da Santa Sé, a Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus, que mantém um contacto regular com diversas instituições judaicas como o Comitê Judaico Internacional para as Consultas Inter-religiosas”.

Face ao aumento do antissemitismo na Europa, que preocupa os Judeus do mundo inteiro, o Cardeal assegurou que “a Santa Sé está e sente-se na primeira linha da luta contra a renovada tentação de antissemitismo. Denunciou e condenou explicitamente o antissemitismo de diversas formas não só no seio da Igreja, como na comunidade internacional”. De igual maneira, a Santa Sé denunciou também “todas as formas de intolerância para com os cristãos, muçulmanos ou os que pertencem a outras religiões”.

Por fim, o Cardeal, questionado sobre a radicalização islamita, lembrou como o terrorismo se tornou, hoje, “num dos principais desafios do mundo contemporâneo e que é importante impedi-lo por todos os meios disponíveis. Uma vez que se trata de uma ameaça mundial, é necessária a cooperação de todos para o combater em todos os níveis, da segurança militar aos níveis políticos e económicos para bloquear as fontes de financiamento dos grupos terroristas”. O Cardeal sublinhou também como a “educação” constituía “o maior desafio”: “A este respeito, incumbe uma grande responsabilidade aos dirigentes religiosos, que são chamados a promover a educação do seu rebanho para o diálogo, a paz e a cultura do encontro” fazendo notar que “se necessário, devemos ter a coragem de repensar os métodos e conteúdos dos programas para, em conjunto, se trabalhar na elaboração de meios que levem à promoção destes valores fundamentais sem os quais não pode haver paz nem diálogo. Devemos lutar contra uma mentalidade que tenda a excluir os outros e a impor uma cultura monocromática em detrimento da diversidade. Devemos denunciar, principalmente, toda e qualquer manipulação da religião que tenha em vista a justificação da violência ou do terrorismo”. Quanto ao islamismo radical, o Cardeal sublinhou que “os muçulmanos têm uma particular responsabilidade no seu combate”.


Fonte: Lisa Palmieri-Billing para Vatican Insider  

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