Santa Sé: Acordo com a Palestina e
o Processo de Paz no Médio Oriente
ENTREVISTA – O secretário de
Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, voltou a falar, durante uma
entrevista ao Vaticano Insider no dia 11 de Junho de 2015, a Israel, ao
processo de paz, ao antissemitismo e à radicalização islamita.
Cinquenta anos
depois do Concílio Vaticano II e da “Nostra
Aetate”, terem revolucionado as relações católico-judaicas e
inter-religiosas e 20 anos depois do Acordo Fundamental que inaugurou uma nova
era das relações diplomáticas entre o estado de Israel e a Santa Sé, o Cardeal
Pietro Parolin, personagem chave da diplomacia do Vaticano, volta às questões
importantes para o processo de paz no Médio Oriente: as relações
Vaticano-Israel e Vaticano-Palestina, a luta contra o crescente anti-semitismo,
a responsabilidade dos chefes religiosos e dos muçulmanos, em particular, na
luta contra a radicalização islamita em todos os níveis e, por fim, os esforços
do Vaticano no encorajamento da paz no Médio Oriente.
O Cardeal
Parolin sublinhou como a Santa Sé, por várias vezes, fez um apelo aos
israelitas e palestinos para que tomassem “decisões audaciosas para a
reconciliação e a paz” Os dois povos devem, antes do mais, resolver os seus
problemas e as dificuldades internas porque, infelizmente, há alguns que parece
não quererem a paz ou que se contentam em manter o stato quo. Espero, no entanto, que a maioria dos cidadãos e dos
grupos seja a favor da paz. O apoio da comunidade internacional é necessário
para se restabelecer a confiança e facilitar o diálogo entravado por uma
história de luta e de confrontos que deixaram feridas profundas. O ponto de
referência deve ser para todos os expressos na Declaração Universal dos
Direitos do Homem de 1948 e nas resoluções da ONU que abordam o problema.
A propósito da
futura assinatura do acordo Santa Sé/Estado da Palestina, o Cardeal sublinhou
que este último não era um obstáculo ou uma iniciativa desfavorável ao processo
de paz entre Israelitas e Palestinos. Muito pelo contrário, apesar de ser um
acordo essencialmente no âmbito da vida da Igreja, ele é pensada para o bem de
toda a sociedade. Com efeito, um acordo pelo qual o Estado Palestiniano se
compromete a reconhecer os direitos fundamentais, inclusivamente a liberdade de
religião, a consciência desta é uma etapa que contribui para o desenvolvimento
de um país que será democrático e que respeita as diferentes realidades
religiosas. A Santa Sé, espera igualmente que o acordo possa, de alguma
maneira, contribuir para uma paz duradoura através de uma solução com dois
estados, o que não poderá ser feito em detrimento dos legítimos direitos dos
Israelitas e dos Palestinos que se devem considerar não como inimigos ou
adversários, mas como vizinhos e, diria mesmo, como amigos e irmãos, desejosos
de encontrarem uma solução negociada para o bem das duas partes”.
No entanto, o
Cardeal lembrou que “não compete à Santa
Sé ter uma estratégia política para a resolução do conflito. A Santa Sé indica
os princípios gerais e apela ao diálogo e à paz”. Voltou a lembrar a
peregrinação do Papa Francisco à Terra Santa, durante a qual o Papa evocou a
paz como um dom de Deus e um compromisso do homem. Esta peregrinação foi
seguida de uma iniciativa do Vaticano convidando os presidentes israelita e
palestiniano a rezarem pela paz, na presença do Patriarca Bartolomeu.
Mais de 20
anos depois da chegada de uma missão diplomática importante da Santa Sé a
Israel, chefiada pelo Cardeal Jean-Louis Taurin, o Cardeal Parolin evocou
igualmente as relações diplomáticas entre Israel e o Vaticano.
“Ao longo dos últimos anos, um certo número
de membros da Igreja, encarregados de diversos ministérios da Santa Sé vieram à
Terra Santa por diversas razões, como o Cardeal Kurt Koch, Presidente do
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da Comissão para
as Relações Religiosas com os Judeus.
No que diz respeito às relações entre a
Santa Sé e o Estado de Israel, gostaria de lembrar que celebrámos recentemente
o 20º aniversário das relações diplomáticas, fruto do Acordo fundamental entre
as partes assinado a 30 de Dezembro ed 1994. Percorremos um longo caminho de
reforço dos nossos laços de mútua amizade e de diálogo. Outro fruto do Acordo
fundamental: o acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja, datada de
Novembro de 1997. Um outro relativo à fiscalidade e à propriedade, denominado
“Acordo económico” está em vias de conclusão depois de anos de negociações, e
espero, será assinado em breve”.
A propósito do
Acordo Fundamental de 1993 e do Acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja
de 1997, apesar de terem sido todos ratificados, mas não foram ainda
incorporados no direito interno israelita, o Cardeal sublinhou que ”a Santa Sé levantou a questão por diversas
vezes e recebeu a garantia das autoridades israelitas que iriam tentar resolver
o problema”.
No respeitante
às relações com o povo judeu, o Secretário de Estado falou do “desenvolvimento muito positivo das relações
judaico-cristãs sobretudo a partir do Consílio Vaticano II e da declaração
Nostra Aetate de 28 de Outubro de 1965 (…). Um gabinete especial da Santa Sé, a
Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus, que mantém um contacto
regular com diversas instituições judaicas como o Comitê Judaico Internacional
para as Consultas Inter-religiosas”.
Face ao
aumento do antissemitismo na Europa, que preocupa os Judeus do mundo inteiro, o
Cardeal assegurou que “a Santa Sé está e
sente-se na primeira linha da luta contra a renovada tentação de
antissemitismo. Denunciou e condenou explicitamente o antissemitismo de
diversas formas não só no seio da Igreja, como na comunidade internacional”.
De igual maneira, a Santa Sé denunciou também “todas as formas de intolerância para com os cristãos, muçulmanos ou os
que pertencem a outras religiões”.
Por fim, o
Cardeal, questionado sobre a radicalização islamita, lembrou como o terrorismo
se tornou, hoje, “num dos principais
desafios do mundo contemporâneo e que é importante impedi-lo por todos os meios
disponíveis. Uma vez que se trata de uma ameaça mundial, é necessária a
cooperação de todos para o combater em todos os níveis, da segurança militar
aos níveis políticos e económicos para bloquear as fontes de financiamento dos
grupos terroristas”. O Cardeal sublinhou também como a “educação” constituía “o
maior desafio”: “A este respeito,
incumbe uma grande responsabilidade aos dirigentes religiosos, que são chamados
a promover a educação do seu rebanho para o diálogo, a paz e a cultura do
encontro” fazendo notar que “se
necessário, devemos ter a coragem de repensar os métodos e conteúdos dos
programas para, em conjunto, se trabalhar na elaboração de meios que levem à
promoção destes valores fundamentais sem os quais não pode haver paz nem
diálogo. Devemos lutar contra uma mentalidade que tenda a excluir os outros e a
impor uma cultura monocromática em detrimento da diversidade. Devemos denunciar,
principalmente, toda e qualquer manipulação da religião que tenha em vista a
justificação da violência ou do terrorismo”. Quanto ao islamismo radical, o
Cardeal sublinhou que “os muçulmanos têm
uma particular responsabilidade no seu combate”.
Fonte: Lisa Palmieri-Billing para
Vatican
Insider

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