sábado, 4 de julho de 2015

14º Domingo do Tempo Comum - Ano B

EVANGELHO – Mc 6,1-6

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n’O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

AMBIENTE
O Evangelho de hoje fala-nos de uma visita à “terra” de Jesus. De acordo com Mc 1,9, a “terra” de Jesus era Nazaré, uma pequena vila da Galileia situada a 22 Km a oeste do Lago de Tiberíades. Esta povoação tipicamente agrícola nunca teve grande importância no universo na história do judaísmo… O Antigo Testamento ignora-a completamente; Flávio Josefo e os escritores rabínicos também não lhe fazem qualquer referência. Os contemporâneos de Jesus parecem conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde reside a sua família.

A cena principal que nos é relatada por Marcos passa-se na sinagoga de Nazaré, num sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar no ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo o israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.

O episódio que nos é proposto integra a primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30). Aí, Jesus é apresentado como o Messias que proclama, por toda a Galileia, o Reino de Deus. Na secção que vai de 3,7 a 6,6, contudo, Marcos refere-se especialmente à reacção do Povo face à proclamação de Jesus… À medida que o “caminho do Reino” vai avançando, vão-se multiplicando as oposições e incompreensões face ao projecto que Jesus anuncia. O nosso texto deve ser entendido neste ambiente.

MENSAGEM
Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixam impressionados os habitantes de Nazaré, como já tinham deixado impressionados os fiéis da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28). No entanto, os de Cafarnaum, depois de ouvir Jesus, reconheceram a sua autoridade mais do que divina (e que, segundo eles, era diferente da autoridade dos doutores da Lei); os de Nazaré vão chegar a conclusões distintas.
Depois de escutarem Jesus, na sinagoga, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas… Duas das questões postas dizem respeito à origem e à qualidade dos ensinamentos de Jesus (“de onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” – vers. 2); uma outra questão refere-se à qualificação das acções de Jesus (“e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” – vers. 2).

Numa espécie de contraponto à impressão que Jesus lhes deixou, eles recordam o seu ofício e a “normalidade” da sua família (vers. 3a)… Para eles, Jesus é “o carpinteiro”: não é um “rabbi”, nunca estudou as Escrituras com nenhum mestre conceituado e não tem qualificações para dizer as coisas que diz. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nela nada de extraordinário: Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são gente “normal”, que toda a gente conhece em Nazaré e que nunca revelaram qualidades excepcionais. Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as acções que Ele realizou são humanamente inexplicáveis.

A questão seguinte (que, no entanto, não aparece explicitamente formulada) é esta: estas capacidades extraordinárias que Jesus revela (e que não vêm certamente dos conhecimentos adquiridos no contacto com famosos mestres, nem do ambiente familiar) vêm de Deus ou do diabo? Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar d’Ele (Jesus é “este” ou “ele” - vers. 2-3). Depois, chamam-Lhe depreciativamente “o filho de Maria” (o costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe). Como cenário de fundo do pensamento dos habitantes de Nazaré está provavelmente a acusação feita a Jesus algum tempo antes pelos “doutores da Lei que haviam descido de Jerusalém e que afirmavam: «Ele tem Belzebu! É pelo chefe dos demónios que ele expulsa os demónios»“ (Mc 3,22). Marcos conclui que os habitantes de Nazaré ficaram “escandalizados” (vers. 3b) com Jesus (o verbo grego “scandalidzô”, aqui utilizado, significa muito mais do que o “ficar perplexo” das nossas traduções: significa “ofender”, “magoar”, “ferir susceptibilidades”). Há na vila uma espécie de indignação porque Jesus, apesar de ter sido desautorizado pelos mestres reconhecidos do judaísmo, continua a desenvolver a sua actividade à margem da instituição judaica. Ele põe em causa a religião tradicional, quando ensina coisas diferentes e de forma diferente dos mestres reconhecidos. Conclusão: Ele está fora da instituição judaica; o seu ensinamento não pode, portanto, vir de Deus, mas do diabo. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Jesus responde aos seus concidadãos (vers. 4) citando um conhecido provérbio, mas que Ele modifica, em parte (o original devia soar mais ou menos assim: “nenhum profeta é respeitado no seu lugar de origem, nenhum médico faz curas entre os seus conhecidos”). Nessa resposta, Jesus assume-Se como profeta – isto é, como um enviado de Deus, que actua em nome de Deus e que tem uma mensagem de Deus para oferecer aos homens. Os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que Ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens.

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O Povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na palavra e nos gestos proféticos. O facto de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Porque é que Jesus “não podia ali fazer qualquer milagre” (vers. 5)? Deus oferece aos homens, através de Jesus, perspectivas de vida nova e eterna… No entanto, os homens são livres; se eles se mantêm fechados nos seus esquemas e preconceitos egoístas e rejeitam a vida que Deus lhes oferece, Jesus não pode fazer nada. Marcos observa, apesar de tudo, que Jesus “curou alguns doentes impondo-lhes as mãos”. Provavelmente, estes “doentes” são aqueles que manifestam uma certa abertura a Jesus mas que, de qualquer forma, não têm a coragem de cortar radicalmente com os mecanismos religiosos do judaísmo para descobrir a novidade radical do Reino que Jesus anuncia.

Marcos nota ainda a “surpresa” de Jesus pela falta de fé dos seus concidadãos (vers. 6a). Esperava-se que, confrontados com a proposta nova de liberdade e de vida plena que Jesus apresenta, os seus interlocutores renunciassem à escravidão para abraçar com entusiasmo a nova realidade… No entanto, eles estão de tal forma acomodados e instalados, que preferem a vida velha da escravidão à novidade libertadora de Jesus.


Este facto decepcionante não impede, contudo, que Jesus continue a propor a Boa Nova do Reino a todos os homens (vers. 6b). Deus oferece, sem interrupção, a sua vida; ao homem resta acolher ou não esse oferecimento.

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