terça-feira, 28 de julho de 2015

«Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede»

ANO B - 18º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,24-35


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?»
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes milagres,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?»
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra realizas?
No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

AMBIENTE
No passado domingo, João contou-nos como Jesus alimentou a multidão com cinco pães e dois peixes, na “outra” margem do Lago de Tiberíades (cf. Jo 6,1-15). Ao “cair da tarde” desse dia, Jesus e os discípulos voltaram a Cafarnaum (cf. Jo 6,16-21).

O episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta situa-nos em Cafarnaum, no “dia seguinte” ao episódio da multiplicação dos pães e dos peixes. Nessa manhã, a multidão que tinha sido alimentada pelos pães e pelos peixes multiplicados e que ainda estava do “outro lado” do lago apercebeu-se de que Jesus tinha regressado a Cafarnaum e dirigiu-se ao seu encontro.
A Sinagoga de Cafarnaum

A multidão encontra Jesus na sinagoga de Cafarnaum – uma cidade situada na margem ocidental do Lago e à volta da qual se desenrola uma parte significativa da actividade de Jesus na Galileia. Confrontado com a multidão, Jesus profere um discurso (cf. Jo 6,22-59) que explica o sentido do gesto precedente (a multiplicação dos pães e dos peixes).

MENSAGEM
A cena inicial (vers. 24) parece sugerir, à primeira vista, que a pregação de Jesus alcançou um êxito total: a multidão está entusiasmada, procura Jesus com afã e segue-O para todo o lado. Aparentemente, a missão de Jesus não podia correr melhor.

Contudo, Jesus percebe facilmente que a multidão está equivocada e que O procura pelas razões erradas. Na verdade, a multiplicação dos pães e dos peixes pretendeu ser, por parte de Jesus, uma lição sobre amor, partilha e serviço; mas a multidão não foi sensível ao significado profundo do gesto, ficou-se pelas aparências e só percebeu que Jesus podia oferecer-lhe, de forma gratuita, pão em abundância. Assim, o facto de a multidão procurar Jesus e Se dirigir ao seu encontro não significa que tenha aderido à sua proposta; significa, apenas, que viu em Jesus um modo fácil e barato de resolver os seus problemas materiais.

Na verdade, o gesto de repartir pela multidão os pães e os peixes gerou um perigoso equívoco. Jesus está consciente de que é preciso desfazer, quanto antes, esse mal-entendido. Por isso, nem sequer responde à pergunta inicial que Lhe põem (“Mestre, quando chegaste aqui?” – vers. 25); mas, mal se encontra diante da multidão, procura esclarecer coisas bem mais importantes do que a hora da sua chegada a Cafarnaum… As palavras que Jesus dirige àqueles que O rodeiam põem o problema da seguinte forma: eles não procuram Jesus, mas procuram a resolução dos seus problemas materiais (vers. 26). Trata-se de uma procura interesseira e egoísta, que é absolutamente contrária à mensagem que Jesus procurou passar-lhes. Depois de identificar o problema, Jesus deixa-lhes um aviso: é preciso esforçar-se por conseguir, não só o alimento que mata a fome física, mas sobretudo o alimento que sacia a fome de vida que todo o homem tem. A multidão, ao preocupar-se apenas com a procura do alimento material, está a esquecer o essencial – o alimento que dá vida definitiva. Esse alimento que dá a vida eterna é o próprio Jesus que o traz (vers. 27).

O que é preciso fazer para receber esse pão? – pergunta-se a multidão (vers. 28). A resposta de Jesus é clara: é preciso aderir a Jesus e ao seu projecto (vers. 28). Na cena da multiplicação dos pães, a multidão não aderiu ao projecto de Jesus (que falava de amor, de partilha, de serviço); apenas correu atrás do profeta milagreiro que distribuía pão e peixes gratuitamente e em abundância… Mas, para receber o alimento que dá vida eterna e definitiva, é preciso, que a multidão acolha as propostas de Jesus e aceite viver no amor que se faz dom, na partilha daquilo que se tem com os irmãos, no serviço simples e humilde aos outros homens. É acolhendo e interiorizando esse “pão” que se adquire a vida que não acaba.

Os interlocutores de Jesus não estão, no entanto, convencidos de que esse “pão” garanta a vida definitiva. Custa-lhes a aceitar que a vida eterna resulte do amor, do serviço, da partilha. O que é que garante, perguntam eles, que esse seja um caminho verdadeiro para a vida definitiva (vers. 30)? Qual a prova de que a realização plena do homem passe pelo dom da própria vida aos demais? Porque é que Jesus não realiza um gesto espectacular – como Moisés, que fez chover do céu o maná, não apenas para cinco mil pessoas, mas para todo o Povo e de forma continuada – para provar que a proposta que Ele faz é verdadeiramente uma proposta geradora de vida (vers. 31)?

Jesus responde pondo a questão da seguinte forma: o maná foi um dom de Deus para saciar a fome material do seu Povo; mas o maná não é esse “pão” que sacia a fome de vida eterna do homem. Só Deus dá aos homens, de forma contínua, a vida eterna; e esse dom do Pai não veio ao encontro dos homens através de Moisés, mas através de Jesus (vers. 32-33). Portanto, o importante não é testemunhar gestos espectaculares, que deslumbram e impressionam mas não mudam nada; mas é acolher a proposta que Jesus faz e vivê-la nos gestos simples de todos os dias.

A última frase do nosso texto identifica o próprio Jesus, já não com o “portador” do pão, mas como o próprio pão que Deus quer oferecer ao seu Povo para lhe saciar a fome e a sede de vida (vers. 35). “Comê-lo” será escutar a sua Palavra, acolher a sua proposta, assimilar os seus valores, interiorizar o seu jeito de viver, fazer da vida (como Jesus fez) um dom total de amor aos irmãos. Seguindo Jesus, acolhendo a sua proposta no coração e deixando que ela se transforme em gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, o homem encontrará essa “qualidade” de vida que o leva à sua realização plena, à vida eterna.


(in, http://www.dehonianos.org)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

«Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco»

16º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 6,30-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.


AMBIENTE
O Evangelho do passado domingo mostrava-nos Jesus a enviar os discípulos, dois a dois, para pregarem o arrependimento, expulsarem os demónios, ungirem e curarem os doentes (cf. Mc 6,7-13). O anúncio que é confiado aos discípulos é o anúncio que Jesus fazia (o “Reino”); os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o “Reino” são os mesmos que Jesus fez.
O Evangelho deste domingo apresenta-nos o regresso dos enviados de Jesus. Marcos chama-lhes, agora, “apóstolos” (enviados): é a única vez que a palavra aparece no Evangelho segundo Marcos. A missão correu bem e os “apóstolos” estão entusiasmados, mas naturalmente cansados.
Não há, no texto, qualquer indicação do lugar onde a cena se teria desenrolado.



MENSAGEM
O nosso texto começa com a narração do regresso dos discípulos que, entusiasmados, contam a Jesus a forma como se tinha desenrolado a missão que lhes fora confiada (vers. 30). Na sequência, Jesus convida-os a irem com Ele para um lugar isolado e a descansarem um pouco (vers. 31). Os discípulos foram, com Jesus, para um lugar deserto (vers. 32); mas as multidões adivinharam para onde Jesus e os discípulos se dirigiam e chegaram primeiro (vers. 33). Ao desembarcar, Jesus viu as pessoas, teve compaixão delas (“porque eram como ovelhas sem pastor”) e pôs-se a ensiná-las (vers. 34).
O episódio, em si, é banal… No entanto, Marcos vai aproveitá-lo para desenvolver a sua catequese sobre o discipulado. A catequese apresentada por Marcos desenvolve-se à volta dos seguintes pontos:
1. Os apóstolos são os enviados de Jesus, chamados a continuar no mundo a missão de Jesus. Essa missão consiste em anunciar o Reino. Para a concretizar, os apóstolos convidam os homens que escutam a mensagem a mudarem a sua vida e a acolherem a proposta que Jesus lhes faz. Os gestos dos discípulos (“expulsaram demónios, curaram doentes” – Mc 6,13) anunciam esse mundo novo de homens livres e esse projecto de vida verdadeira e plena que Deus quer oferecer a todos os homens.
2. A referência à necessidade de os “apóstolos” descansarem (pois nem sequer tinham tempo para comer) pretende ser um aviso contra o activismo exagerado, que destrói as forças do corpo e do espírito e leva, tantas vezes, a perder o sentido da missão.
3. Os “apóstolos” são convidados por Jesus a irem com Ele para um lugar isolado. Já dissemos, acima, que não se nomeia esse lugar: na realidade, o que interessa aqui não é o lugar geográfico, mas sim que esse “descanso” deve acontecer junto de Jesus. É ao lado de Jesus, escutando-O, dialogando com Ele, gozando da sua intimidade, que os discípulos recuperam as suas forças. Se os discípulos não confrontarem, frequentemente, os seus esquemas e projectos pastorais com Jesus e a sua Palavra, a missão redundará num fracasso.
4. Entretanto, as multidões tinham seguido Jesus e os discípulos a pé – quer dizer, deslocando-se à volta do Lago de Tiberíades, com o barco sempre à vista. Esta busca incansável e impaciente espelha, com algum dramatismo, a ânsia de vida que as pessoas sentem… Jesus, cheio de compaixão, compara a multidão a um rebanho sem pastor. Não é nos líderes religiosos ou políticos da nação que elas encontram segurança e esperança; não é nos ritos da religião tradicional que elas encontram paz e sentido para a vida… Mas é em Jesus e na sua proposta que as multidões encontram vida verdadeira e plena. Na sequência, Marcos vai narrar-nos a cena da multiplicação dos pães e dos peixes, que saciam a fome de cinco mil homens.


(in www.dehonianos.org)

sábado, 4 de julho de 2015

14º Domingo do Tempo Comum - Ano B

EVANGELHO – Mc 6,1-6

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n’O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

AMBIENTE
O Evangelho de hoje fala-nos de uma visita à “terra” de Jesus. De acordo com Mc 1,9, a “terra” de Jesus era Nazaré, uma pequena vila da Galileia situada a 22 Km a oeste do Lago de Tiberíades. Esta povoação tipicamente agrícola nunca teve grande importância no universo na história do judaísmo… O Antigo Testamento ignora-a completamente; Flávio Josefo e os escritores rabínicos também não lhe fazem qualquer referência. Os contemporâneos de Jesus parecem conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde reside a sua família.

A cena principal que nos é relatada por Marcos passa-se na sinagoga de Nazaré, num sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar no ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo o israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.

O episódio que nos é proposto integra a primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30). Aí, Jesus é apresentado como o Messias que proclama, por toda a Galileia, o Reino de Deus. Na secção que vai de 3,7 a 6,6, contudo, Marcos refere-se especialmente à reacção do Povo face à proclamação de Jesus… À medida que o “caminho do Reino” vai avançando, vão-se multiplicando as oposições e incompreensões face ao projecto que Jesus anuncia. O nosso texto deve ser entendido neste ambiente.

MENSAGEM
Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixam impressionados os habitantes de Nazaré, como já tinham deixado impressionados os fiéis da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28). No entanto, os de Cafarnaum, depois de ouvir Jesus, reconheceram a sua autoridade mais do que divina (e que, segundo eles, era diferente da autoridade dos doutores da Lei); os de Nazaré vão chegar a conclusões distintas.
Depois de escutarem Jesus, na sinagoga, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas… Duas das questões postas dizem respeito à origem e à qualidade dos ensinamentos de Jesus (“de onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” – vers. 2); uma outra questão refere-se à qualificação das acções de Jesus (“e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” – vers. 2).

Numa espécie de contraponto à impressão que Jesus lhes deixou, eles recordam o seu ofício e a “normalidade” da sua família (vers. 3a)… Para eles, Jesus é “o carpinteiro”: não é um “rabbi”, nunca estudou as Escrituras com nenhum mestre conceituado e não tem qualificações para dizer as coisas que diz. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nela nada de extraordinário: Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são gente “normal”, que toda a gente conhece em Nazaré e que nunca revelaram qualidades excepcionais. Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as acções que Ele realizou são humanamente inexplicáveis.

A questão seguinte (que, no entanto, não aparece explicitamente formulada) é esta: estas capacidades extraordinárias que Jesus revela (e que não vêm certamente dos conhecimentos adquiridos no contacto com famosos mestres, nem do ambiente familiar) vêm de Deus ou do diabo? Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar d’Ele (Jesus é “este” ou “ele” - vers. 2-3). Depois, chamam-Lhe depreciativamente “o filho de Maria” (o costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe). Como cenário de fundo do pensamento dos habitantes de Nazaré está provavelmente a acusação feita a Jesus algum tempo antes pelos “doutores da Lei que haviam descido de Jerusalém e que afirmavam: «Ele tem Belzebu! É pelo chefe dos demónios que ele expulsa os demónios»“ (Mc 3,22). Marcos conclui que os habitantes de Nazaré ficaram “escandalizados” (vers. 3b) com Jesus (o verbo grego “scandalidzô”, aqui utilizado, significa muito mais do que o “ficar perplexo” das nossas traduções: significa “ofender”, “magoar”, “ferir susceptibilidades”). Há na vila uma espécie de indignação porque Jesus, apesar de ter sido desautorizado pelos mestres reconhecidos do judaísmo, continua a desenvolver a sua actividade à margem da instituição judaica. Ele põe em causa a religião tradicional, quando ensina coisas diferentes e de forma diferente dos mestres reconhecidos. Conclusão: Ele está fora da instituição judaica; o seu ensinamento não pode, portanto, vir de Deus, mas do diabo. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Jesus responde aos seus concidadãos (vers. 4) citando um conhecido provérbio, mas que Ele modifica, em parte (o original devia soar mais ou menos assim: “nenhum profeta é respeitado no seu lugar de origem, nenhum médico faz curas entre os seus conhecidos”). Nessa resposta, Jesus assume-Se como profeta – isto é, como um enviado de Deus, que actua em nome de Deus e que tem uma mensagem de Deus para oferecer aos homens. Os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que Ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens.

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O Povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na palavra e nos gestos proféticos. O facto de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Porque é que Jesus “não podia ali fazer qualquer milagre” (vers. 5)? Deus oferece aos homens, através de Jesus, perspectivas de vida nova e eterna… No entanto, os homens são livres; se eles se mantêm fechados nos seus esquemas e preconceitos egoístas e rejeitam a vida que Deus lhes oferece, Jesus não pode fazer nada. Marcos observa, apesar de tudo, que Jesus “curou alguns doentes impondo-lhes as mãos”. Provavelmente, estes “doentes” são aqueles que manifestam uma certa abertura a Jesus mas que, de qualquer forma, não têm a coragem de cortar radicalmente com os mecanismos religiosos do judaísmo para descobrir a novidade radical do Reino que Jesus anuncia.

Marcos nota ainda a “surpresa” de Jesus pela falta de fé dos seus concidadãos (vers. 6a). Esperava-se que, confrontados com a proposta nova de liberdade e de vida plena que Jesus apresenta, os seus interlocutores renunciassem à escravidão para abraçar com entusiasmo a nova realidade… No entanto, eles estão de tal forma acomodados e instalados, que preferem a vida velha da escravidão à novidade libertadora de Jesus.


Este facto decepcionante não impede, contudo, que Jesus continue a propor a Boa Nova do Reino a todos os homens (vers. 6b). Deus oferece, sem interrupção, a sua vida; ao homem resta acolher ou não esse oferecimento.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

S. João Baptista: uma festa, dois santuários

«Viveu em regiões desertas até o dia de sua manifestação a Israel» (Lc 1,80).

Na terça-feira, 23 de Junho, as primeiras vésperas da festa de S. João Baptista foram celebradas, segunda a tradição, no Santuário de S. João no Deserto, próximo de Ain Karem. Esse convento, na encosta da colina e imerso na vegetação, dentro do qual nasce uma fonte, oferece um quadro tranquilo e repousante. Como cada ano, ao cair da tarde, ao olor do jasmim e vésperas das férias, os Franciscanos ali se encontraram. Por já terem acabado os exames, notava-se na face dos estudantes um sorriso feliz e aliviado, na expectativa das próximas férias de Verão.

As primeiras vésperas foram celebradas na capela e presididas pelo Vigário da Custódia, Fr. Dobromir Jasztal. Após as vésperas, foi feita uma procissão, fora do convento, em torno da fonte e do tanque, acompanhada pela melodia de um canto que dava glória a Deus. Cada um, depois, recolheu-se na gruta de S. João Baptista. Foi aqui, retirado do mundo, que o santo amadureceu sua missão que Deus lhe confiara. Para os dez Frades Franciscanos que se preparam para sua ordenação na próxima segunda-feira, dia 29 de Junho, esse tempo de retiro tem um sentido todo especial.


Para Fr. Guylain, franciscano de Quebec, na Terra Santa há alguns meses, essa festa tem particular ressonância: «O dia 24 de Junho é festa nacional do Quebec, cidade da qual S. João Baptista é padroeiro. Além disso, neste ano, acontece o quarto centenário da primeira Missa celebrada nessa região pelos primeiros Franciscanos, ali chegados. Viver esse dia de maneira tão solene, com todos os meus confrades, é um verdadeiro enriquecimento, em comparação aos anos precedentes. É possível encontrar motivos em cada um de nós!». A celebração encerrou-se com um jantar de convívio no terraço, em frente ao vale.

No dia seguinte, 24 de Junho, o nascimento de S. João Baptista foi celebrado no santuário franciscano de S. João «na montanha», em Ain Karem. Depois da Missa paroquial da manhã, a Missa solene reuniu os paroquianos, peregrinos e amigos dos Franciscanos, numa igreja totalmente lotada. O Vice-Cônsul da Espanha estava também presente, por causa dos tradicionais laços desse santuário com a Espanha. Na sua homilia, o Custódio Pe. Fr. Pierbattista Pizzaballa sublinhou a capacidade de S. João Baptista em permanecer humilde, ocupando o segundo posto, a fim de deixar Deus agir: atitude exemplar que deve inspirar a cada um de nós. A procissão à gruta do nascimento de João Baptista concluiu a celebração.

O almoço tradicional, após a Missa, neste ano, aconteceu na nova sala do convento. Benzida pelo Custódio, essa tem a finalidade de acolher grupos de peregrinos para encontros e refeições. Fr. Pierbattista agradeceu ao Economato da Custódia, que financiara o projecto; a Fr. Severino Lubecki, OFM, Guardião do convento e iniciador do projecto; e ao Escritório Técnico da Custódia. Ettore Soranzo, responsável por esse escritório, explicou: «Os trabalhos duraram quase um ano, com vinte operários trabalhando neste projecto. Esses são principalmente cristãos, que habitam na Cisjordânia, e puderam, assim, sustentar suas famílias.»


Esperando os peregrinos, todos participaram num almoço de alta qualidade, digno do tradicional acolhimento franciscano.

(in, www.custodia.org)

Santa Sé: Acordo com a Palestina e o Processo de Paz no Médio Oriente

Santa Sé: Acordo com a Palestina e o Processo de Paz no Médio Oriente

ENTREVISTA – O secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, voltou a falar, durante uma entrevista ao Vaticano Insider no dia 11 de Junho de 2015, a Israel, ao processo de paz, ao antissemitismo e à radicalização islamita.

Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da “Nostra Aetate”, terem revolucionado as relações católico-judaicas e inter-religiosas e 20 anos depois do Acordo Fundamental que inaugurou uma nova era das relações diplomáticas entre o estado de Israel e a Santa Sé, o Cardeal Pietro Parolin, personagem chave da diplomacia do Vaticano, volta às questões importantes para o processo de paz no Médio Oriente: as relações Vaticano-Israel e Vaticano-Palestina, a luta contra o crescente anti-semitismo, a responsabilidade dos chefes religiosos e dos muçulmanos, em particular, na luta contra a radicalização islamita em todos os níveis e, por fim, os esforços do Vaticano no encorajamento da paz no Médio Oriente.

O Cardeal Parolin sublinhou como a Santa Sé, por várias vezes, fez um apelo aos israelitas e palestinos para que tomassem “decisões audaciosas para a reconciliação e a paz” Os dois povos devem, antes do mais, resolver os seus problemas e as dificuldades internas porque, infelizmente, há alguns que parece não quererem a paz ou que se contentam em manter o stato quo. Espero, no entanto, que a maioria dos cidadãos e dos grupos seja a favor da paz. O apoio da comunidade internacional é necessário para se restabelecer a confiança e facilitar o diálogo entravado por uma história de luta e de confrontos que deixaram feridas profundas. O ponto de referência deve ser para todos os expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 e nas resoluções da ONU que abordam o problema.

A propósito da futura assinatura do acordo Santa Sé/Estado da Palestina, o Cardeal sublinhou que este último não era um obstáculo ou uma iniciativa desfavorável ao processo de paz entre Israelitas e Palestinos. Muito pelo contrário, apesar de ser um acordo essencialmente no âmbito da vida da Igreja, ele é pensada para o bem de toda a sociedade. Com efeito, um acordo pelo qual o Estado Palestiniano se compromete a reconhecer os direitos fundamentais, inclusivamente a liberdade de religião, a consciência desta é uma etapa que contribui para o desenvolvimento de um país que será democrático e que respeita as diferentes realidades religiosas. A Santa Sé, espera igualmente que o acordo possa, de alguma maneira, contribuir para uma paz duradoura através de uma solução com dois estados, o que não poderá ser feito em detrimento dos legítimos direitos dos Israelitas e dos Palestinos que se devem considerar não como inimigos ou adversários, mas como vizinhos e, diria mesmo, como amigos e irmãos, desejosos de encontrarem uma solução negociada para o bem das duas partes”.

No entanto, o Cardeal lembrou que “não compete à Santa Sé ter uma estratégia política para a resolução do conflito. A Santa Sé indica os princípios gerais e apela ao diálogo e à paz”. Voltou a lembrar a peregrinação do Papa Francisco à Terra Santa, durante a qual o Papa evocou a paz como um dom de Deus e um compromisso do homem. Esta peregrinação foi seguida de uma iniciativa do Vaticano convidando os presidentes israelita e palestiniano a rezarem pela paz, na presença do Patriarca Bartolomeu.

Mais de 20 anos depois da chegada de uma missão diplomática importante da Santa Sé a Israel, chefiada pelo Cardeal Jean-Louis Taurin, o Cardeal Parolin evocou igualmente as relações diplomáticas entre Israel e o Vaticano.

“Ao longo dos últimos anos, um certo número de membros da Igreja, encarregados de diversos ministérios da Santa Sé vieram à Terra Santa por diversas razões, como o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus.
No que diz respeito às relações entre a Santa Sé e o Estado de Israel, gostaria de lembrar que celebrámos recentemente o 20º aniversário das relações diplomáticas, fruto do Acordo fundamental entre as partes assinado a 30 de Dezembro ed 1994. Percorremos um longo caminho de reforço dos nossos laços de mútua amizade e de diálogo. Outro fruto do Acordo fundamental: o acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja, datada de Novembro de 1997. Um outro relativo à fiscalidade e à propriedade, denominado “Acordo económico” está em vias de conclusão depois de anos de negociações, e espero, será assinado em breve”.
A propósito do Acordo Fundamental de 1993 e do Acordo sobre a personalidade jurídica da Igreja de 1997, apesar de terem sido todos ratificados, mas não foram ainda incorporados no direito interno israelita, o Cardeal sublinhou que ”a Santa Sé levantou a questão por diversas vezes e recebeu a garantia das autoridades israelitas que iriam tentar resolver o problema”.
No respeitante às relações com o povo judeu, o Secretário de Estado falou do “desenvolvimento muito positivo das relações judaico-cristãs sobretudo a partir do Consílio Vaticano II e da declaração Nostra Aetate de 28 de Outubro de 1965 (…). Um gabinete especial da Santa Sé, a Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus, que mantém um contacto regular com diversas instituições judaicas como o Comitê Judaico Internacional para as Consultas Inter-religiosas”.

Face ao aumento do antissemitismo na Europa, que preocupa os Judeus do mundo inteiro, o Cardeal assegurou que “a Santa Sé está e sente-se na primeira linha da luta contra a renovada tentação de antissemitismo. Denunciou e condenou explicitamente o antissemitismo de diversas formas não só no seio da Igreja, como na comunidade internacional”. De igual maneira, a Santa Sé denunciou também “todas as formas de intolerância para com os cristãos, muçulmanos ou os que pertencem a outras religiões”.

Por fim, o Cardeal, questionado sobre a radicalização islamita, lembrou como o terrorismo se tornou, hoje, “num dos principais desafios do mundo contemporâneo e que é importante impedi-lo por todos os meios disponíveis. Uma vez que se trata de uma ameaça mundial, é necessária a cooperação de todos para o combater em todos os níveis, da segurança militar aos níveis políticos e económicos para bloquear as fontes de financiamento dos grupos terroristas”. O Cardeal sublinhou também como a “educação” constituía “o maior desafio”: “A este respeito, incumbe uma grande responsabilidade aos dirigentes religiosos, que são chamados a promover a educação do seu rebanho para o diálogo, a paz e a cultura do encontro” fazendo notar que “se necessário, devemos ter a coragem de repensar os métodos e conteúdos dos programas para, em conjunto, se trabalhar na elaboração de meios que levem à promoção destes valores fundamentais sem os quais não pode haver paz nem diálogo. Devemos lutar contra uma mentalidade que tenda a excluir os outros e a impor uma cultura monocromática em detrimento da diversidade. Devemos denunciar, principalmente, toda e qualquer manipulação da religião que tenha em vista a justificação da violência ou do terrorismo”. Quanto ao islamismo radical, o Cardeal sublinhou que “os muçulmanos têm uma particular responsabilidade no seu combate”.


Fonte: Lisa Palmieri-Billing para Vatican Insider