32º Domingo do Tempo Comum
8 de Novembro de 2015
EVANGELHO – Mc 12,38-44
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas
sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais
severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do
tesouro
a observar como a multidão deixava o
dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias
avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é,
um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do
que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o
que tinha,
tudo o que possuía para viver».
AMBIENTE
O nosso texto situa-nos em Jerusalém, nos dias que antecedem a
prisão, julgamento e morte de Jesus. Por esta altura, adensam-se as polémicas
de Jesus com os representantes do Judaísmo oficial. A cada passo fica mais
claro que o projecto do Reino (proposto por Jesus) é incompatível com a visão
religiosa dos líderes judaicos. Num ambiente carregado de dramatismo,
adivinha-se o inevitável choque decisivo entre Jesus e a instituição judaica e
prepara-se o cenário da Cruz.
Jesus tem consciência de que os
líderes da comunidade judaica tinham transformado a religião de Moisés – com os
seus ritos, exigências legais, proibições e obrigações – numa proposta vazia e
estéril. Mal-servida e manipulada pelos seus líderes religiosos, a comunidade
judaica tinha-se transformado numa figueira seca (cf. Mc 11,12-14. 20-26), onde
Deus não encontrava os frutos que esperava (o culto verdadeiro e sincero, o
amor, a justiça, a misericórdia). O próprio Templo – o espaço onde se desenrolavam abundantes ritos cultuais e
sumptuosas cerimónias litúrgicas – tinha deixado de ser o lugar do encontro de
Deus com a comunidade israelita e tinha-se tornado um lugar de exploração e de
injustiça, “um covil de ladrões” (cf. Mc 11,15-19)…
Jesus tem presente tudo isto
quando ensina nos átrios do Templo,
rodeado pelos discípulos. À sua volta desenrola-se esse folclore religioso,
feito de ritos externos, de grandes gestos teatrais, frequentemente vazios de
conteúdo. Os “doutores da Lei” (geralmente, do partido dos fariseus; estudavam
e memorizavam as Escrituras e ensinavam aos seus discípulos as regras – ou
“halakot” – que deviam dirigir cada passo da vida dos fiéis israelitas), com as
suas vestes especiais e os traços característicos de quem se julgava com
direito a todas as deferências, honras e privilégios, são mais um elemento no
quadro desse culto de mentira que Jesus tem diante dos olhos.
Em contraponto, Jesus repara no
“átrio das mulheres”, onde uma viúva deposita, no tesouro do Templo, a sua humilde oferta (dons
voluntários eram feitos com frequência, tendo por finalidade, por exemplo,
cumprir votos). As viúvas, no ambiente palestino de então (sobretudo quando não
tinham filhos que as protegessem e alimentassem), eram o modelo clássico do
pobre, do explorado, do débil.
MENSAGEM
O nosso texto compõe-se, portanto,
de duas partes. Na primeira parte (vers. 38-40), Jesus faz incidir a atenção
dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei. Aparentemente, os
doutores da Lei são figuras intocáveis da comunidade, com uma atitude religiosa
irrepreensível. São estimados, admirados e adulados pelo povo, que os tem em
alto conceito. Contudo, o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências,
mas penetra na realidade das coisas…
Uma análise mais cuidada mostra
que esses doutores da Lei são hipócritas e incoerentes: fazem as coisas, não
por convicção, mas para serem considerados e admirados pelo povo; procuram os
primeiros lugares, preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos
outros, exibem uma devoção de fachada, fazem do cumprimento dos ritos e regras
da Lei um espectáculo para os outros aplaudirem… A sua vida é, portanto, um imenso
repertório de mentira, de incoerência, de hipocrisia…
Como se isso não bastasse, estes
doutores da Lei aproveitam-se, frequentemente, da sua posição e da confiança
que inspiram – como intérpretes autorizados da Lei de Deus – para explorar os
mais pobres (aqueles que são os preferidos de Deus); servem-se da religião para
satisfazer a sua avareza, não têm escrúpulos em aproveitar-se boa-fé das
pessoas para aumentar os seus proveitos; exploram as viúvas, que lhes confiam a
administração dos próprios bens, alinham em esquemas de corrupção e de
exploração…
Os doutores da Lei, com os seus
comportamentos hipócritas, mostram que os ritos externos, os gestos teatrais, o
cumprimento das regras religiosamente correctas não chegam para aproximar os
homens de Deus e da santidade de Deus. Ao olhar para a atitude dos doutores da
Lei, os discípulos de Jesus têm de estar conscientes de que este não é o
comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da sua família.
Na segunda parte (vers. 41-44),
Jesus convida os discípulos a perceber a essência do verdadeiro culto, da
verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o quadro dos doutores
da Lei, Jesus aponta aos discípulos a figura de uma pobre viúva, que se
aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo, onde se
depositavam as ofertas para o tesouro do Templo.
A mulher deposita aí duas simples moedas (dois “leptá”, diz o texto grego. O
“leptá” era uma moeda de cobre, a mais pequena e insignificante das moedas
judaicas); contudo, aquela quantia insignificante era tudo o que a mulher
possuía. Ninguém, excepto Jesus, repara nela ou manifesta admiração pelo seu
gesto. Apenas Jesus – que lê os factos com os olhos de Deus e sabe ver para
além das aparências – percebe naquelas duas insignificantes moedas oferecidas a
marca de um dom total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e
sem medida.
O encontro com Deus, o culto que
Deus quer passa por gestos simples e humildes, que podem passar completamente
despercebidos, mas que são sinceros, verdadeiros, e expressam a entrega
generosa e o compromisso total. O verdadeiro crente não é o que cultiva gestos
teatrais e espampanantes, que impressionam as multidões e que são aplaudidos
pelos homens; mas é o que aceita despojar-se de tudo, prescindir dos seus interesses
e projectos pessoais, para se entregar completa e gratuitamente nas mãos de
Deus, com humildade, generosidade, total confiança, amor verdadeiro. É este o
exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o culto verdadeiro que
eles devem prestar a Deus.

Sem comentários:
Enviar um comentário