Qumram:
As misteriosas cavernas de Israel
Thiago de Oliveira Geraldo
Ele
a procura por todos os lados, mas não encontra. Onde estará a ovelha de
Mohammed ed-Dib (“o Lobo”)? Pertencente à tribo beduína dos Ta’âmireh, o jovem
pastor tenta localizar o animal desgarrado entre as reentrâncias da falésia[1]
que se estende a centenas de metros do nível do Mar Morto.[2]
Os
nativos da região sabiam da existência de ruínas a pouco mais de dez
quilômetros da cidade de Jericó, esse lugar era denominado Qirbet[3] Qumran.
Suas ruínas se situam cerca de um quilômetro da margem do “Mar Salgado”.
Para
Mohammed o que lhe interessava naquele início de 1947 era encontrar seu animal
que havia se desgarrado a 1.300 metros ao norte da Qirbet. Enquanto procurava a
ovelhinha, entrou em uma das cavernas e ali observou que havia jarros de
argila, porém não quis permanecer sozinho naquele lugar; mais tarde voltou com
um companheiro e acharam, dentro dos jarros, rolos de pele manuscritos envoltos
em pano de linho e levaram sete que estavam em melhor estado. Parece lenda, mas
foi assim que em pleno século XX, um jovem de uma tribo nômade descobre a
primeira gruta de Qumran, suscitando o interesse e esforço de estudiosos do
mundo inteiro para cuidadosas pesquisas.
Inicialmente
quatro destes rolos foram vendidos ao bispo do mosteiro sírio (São Marcos de
Jerusalém) e depois transportados para os Estados Unidos. Voltaram a Israel
mediante pagamento de 250.000 dólares, em 1954. Os outros três foram adquiridos
pelo Pe. E. L. Sukenik (em nome da Universidade Hebraica). Por meio de
negociações, a Universidade Hebraica de Jerusalém, acabou possuindo os sete
rolos desta primeira descoberta.
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| As grutas de Qumran (www.qumran.com) |
O reconhecimento inicial
O
conflito árabe-israelense (1948-1949) impediu qualquer reconhecimento
arqueológico. Somente após seu término foi possível a uma comissão iniciar as
pesquisas arqueológicas na gruta. A expedição comandada pelo Pe. de Vaux
(diretor da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa e presidente do Comitê
Internacional para a Gestão do Museu Arqueológico Palestino), tinha a
colaboração do inglês Gerald Lankester Harding, diretor do Serviço de
Antiguidades da Jordânia, e do Capitão belga, Philipper Lippens, um observador
da ONU.
No
início de 1949, esta comissão explorou a gruta que só permitia acesso por uma
estreita janela ou rastejando por uma abertura rente ao chão; posteriormente as
escavações ampliaram essas fendas. Com oito metros de comprimento e dois de
largura, a gruta continha – além dos sete manuscritos extraídos pelos beduínos
− dois candeeiros de argila, cerca de cinquenta jarros e 600 fragmentos de
pele, correspondendo a setenta manuscritos. Encontraram também quarenta papiros
muito deteriorados e alguns pedaços de tecido de linho (provavelmente
utilizados para envolver os escritos).
Onze grutas, onze mistérios
As
grutas de Qumran foram classificadas de acordo com os manuscritos nelas
encontrados. Levam o número cronológico de sua descoberta, mais a letra
representativa do local (a primeira gruta de Qumran = 1Q, etc.).
Em
março 1952, a mesma tribo beduína encontrou mais duas grutas (2Q e 3Q). Na
primeira delas – ao sul da 1Q e de acesso muito difícil – foram extraídos 185
fragmentos, o que representa cerca de quarenta manuscritos. A dois quilômetros
ao norte da Qirbet encontra-se a 3Q, com dificuldade de ingresso devido a um
desmoronamento do teto. Aqui 274 fragmentos são encontrados, mas apenas 90
aproveitáveis; ademais de 30 rolos de peles muito deteriorados pelo clima e
animais roedores. A grande riqueza encontrada na 3Q são alguns rolos de cobre,
com textos em caracteres hebraicos, alguns destacados em relevo.
Com
estas descobertas o Pe. de Vaux iniciou uma campanha visando explorar oito
quilômetros de extensão na falésia, a fim de localizar novas cavernas. Das
áreas pesquisadas (entre cavidades e gretas), 40 apresentaram restos de
materiais, inclusive cerâmica e 230 não deram nenhum resultado positivo.
Mais
tarde, a família dos Ta’âmireh encontra mais duas grutas (4Q e 5Q), baseados na
narração de uma caçada feita por um velho beduíno, que dizia ter encontrado
cerâmica antiga ao perseguir uma perdiz ferida no terraço da falésia (os
exploradores não tinham dado grande importância a estas cavidades). Avisados, a
equipe de pesquisadores comandados pelo Pe. de Vaux e pelo abade Milik exploram
a região lateral daquele rochedo íngreme durante uma semana, até que localizam
a caverna indicada pelos beduínos. Cerca de 400 manuscritos foram encontrados
na 4Q. A 5Q abrigava alguns poucos escritos em estado de fragilidade extrema.
Próximo
desse local, os pesquisadores encontram um orifício na falésia que continha 718
fragmentos de papiro e 57 de pele. Calcula-se que seu número era de 30
manuscritos. Esta passou a ser a 6Q. Possuía sinais de pessoas – provavelmente
beduínos – que tinham passado há pouco pelo local.
Uma
expedição realizada de fevereiro a abril de 1955 conduziu os exploradores a
encontrarem mais quatro grutas. Essas foram escavadas por homens, mas a erosão
fez com que houvesse um desmoronamento nas bordas do terraço. Pouco se extraiu
dessas grutas “artificiais”.
No
início de 1956, os beduínos localizaram a última gruta (11Q) cerca de dois
quilômetros do Qirbet Qumran. Depois disso, não se encontrou mais nenhuma gruta
com manuscritos. No entanto, um objeto descoberto na gruta onze levantou
polêmica. Trata-se de uma ferramenta ao mesmo tempo parecida com uma machadinha
e uma espécie de picareta que poderia fazer alusão a um instrumento usado pelos
essênios.
Quem eram os essênios?
Na
época de Jesus havia três grandes facções[4] religiosas: os saduceus, os
fariseus e os essênios. Posteriormente surgiram outras. Essas divisões se fizeram
sentir na época da resistência dos Macabeus (século II a.C.). Os saduceus
(referência ao sacerdócio de Sadoc) eram constituídos pelos sacerdotes, os
quais cuidavam do Templo de Jerusalém e tinham sido influenciados pela
mentalidade helênica. Os fariseus (palavra que significa “separados”) era uma
corrente de leigos que não queria compartilhar da influência estrangeira e, por
isso, se aprofundaram no estudo da Torá (Lei). Os essênios[5] eram conhecidos
pelo seu modo de vida austero, pela sua crença na imortalidade da alma e pela
continência que praticavam. Atraíam muito a admiração de seus compatriotas, bem
como de estrangeiros.
Os
relatos sobre sua conduta estão contidos, de maneira especial, em escritores
antigos, como: Fílon de Alexandria, Flávio Josefo, Hipólito de Roma e Plínio, o
Antigo. As descobertas do Mar Morto trazem informações mais precisas sobre a
comunidade essênica, a provável moradora de Qumran.
Qirbet Qumran: uma história por trás de
ruínas
Após
a descoberta da 11Q, fizeram-se explorações ao sul do Qirbet Qumran.
Encontraram uma habitação, na qual a parte ocidental constituía a moradia dos
vivos e a oriental o descanso dos mortos. Os túmulos localizados chegaram a
1.200, e uma grande quantidade deles era constituído por homens entre vinte a
quarenta anos, que provavelmente foram mortos numa resistência militar e
sepultados após a retirada do inimigo vencedor.
Dentre
as descobertas realizadas ali, chama a atenção uma oficina de cerâmica (cujos
formatos assemelhavam-se às encontradas nas grutas) e um scriptorium
(escritório). Apesar de não se encontrarem manuscritos no local, estes dois
ambientes indicam que seus moradores escreviam e faziam jarros de cerâmica para
guardar os escritos. Portanto, havia uma atividade de escribas (copistas) em
Qumran.
Apesar
de não se ter notícia de moedas nas onze grutas exploradas, nas ruínas de
Qumran foram encontradas 1.250 peças (segundo o Pe. de Vaux), das quais a
maioria podia ser reconhecida. Através do tipo de moeda pode-se prever os
períodos de ocupação de Qumran.
Restos
de muros e cacos de cerâmica encontrados a nordeste da edificação principal faz
remontá-la ao século VIII-VII a.C. Esta habitação pode estar fazendo menção à
“Cidade do Sal” (Jos 15,62), mas da qual não se tem mais informações.
Provavelmente
o primeiro período de ocupação em Qumran (segundo as moedas ali localizadas) se
deu por volta do ano 100 a.C., terminando com um tremor de terra assolador no
ano 31 a.C. O segundo período que se iniciou cerca de 30 anos depois da
tragédia, vai até o ano 68 d.C., onde um destacamento do general romano,
Vespasiano, conquistou Qumran durante a ocupação de Jericó. As moedas
encontradas na segunda camada arqueológica (dos anos 67-68 d.C.) correspondem
ao período da Primeira Revolta dos Judeus contra Roma (anos 66 a 70
d.C.). A partir de então, o terceiro período de ocupação limita-se à
manutenção do edifício por parte de um posto romano, até o domínio completo da
revolta (com a queda da fortaleza de Massada no ano 73 d.C). As moedas
resgatadas pelos arqueólogos – correspondentes a este período – datam dos anos
69-70 a 72-73. Possivelmente os ocupantes de Qumran nesta época seriam a 10ª
legião romana (comandada pelo general Trajano – pai do futuro imperador
Trajano).
Das
peças descobertas, sete moedas referem-se ao Período da Segunda Revolta dos
Judeus contra Roma (anos 132-135 d.C.); isso mostra que um destacamento de
judeus resistiu na Qirbet durante esse período. Com este contexto histórico, a
colocação dos manuscritos nas grutas do Mar Morto deu-se no mais tardar em
junho do ano 68 d.C., por causa dos conflitos.
O que contêm esses manuscritos?
Os
fragmentos encontrados nas onze grutas correspondem a cerca de 600 manuscritos.[6]
Neles estão contidos livros bíblicos e obras até então desconhecidas, como:
comentários bíblicos (Targum) de cunho polêmico, regulamentos para a admissão
de adeptos e modo de vida para uma comunidade, tática militar, etc.
Apenas
11 destes manuscritos se apresentam quase íntegros (sete da 1Q e quatro da
11Q). Os conservados na gruta 11 continham um manuscrito do Levítico, uma
compilação de Salmos, um Targum de Jó e um texto litúrgico de caráter
apocalíptico. Os localizados na 1Q correspondem aos seguintes temas: duas
cópias do livro de Isaías, um comentário de Habacuc (estes são os bíblicos),
regulamento da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, Apócrifo
do Gêneses, Regra de disciplina e Hinos. O rolo do Regulamento da Guerra dos
Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas é o que está em melhor conservação e
o Apócrifo do Gêneses é o único que apresenta o texto em aramaico.
Da
lista geral dos 600 manuscritos, praticamente um quarto deles refere-se a
textos bíblicos, inclusive com livros deuterocanônicos.[7] Também chamam a
atenção alguns textos de códigos disciplinares (Regra de disciplina e sobre a
Guerra) que apresentam semelhanças com textos encontrados por Salomon Schechter
na genizá (sacristia) de uma sinagoga do Cairo (1896-1897), conhecidos como
Documento (ou Escrito) de Damasco. Isto indica que provavelmente tinham várias
comunidades essênicas espalhadas.
Testes
científicos começaram a realizar-se, a fim de comprovar a veracidade dos
documentos. O Prof. Willard F. Libby efetuou uma pesquisa nuclear (teste
carbono 14) no Instituto de Física Nuclear de Chicago. Este comprovou que um
pedaço de linho retirado de um rolo do Profeta Isaías era do tempo de Jesus.[8]
A
publicação das descobertas de Qumran não tardou. Por volta da década de 50
começou a divulgação das pesquisas; no entanto, só o tempo e o trabalho apurado
de especialistas poderão desvendar todo o valor contido nestes documentos.[9]
Três tradições textuais da Bíblia
Quando
nos dias de hoje se toma uma Bíblia na mão, talvez nem se imagine que ela teve
mais de uma versão na antiguidade. Três são as principais versões (tradições)
da Bíblia: a Samaritana, o Cânon de Jâmnia e a Tradução dos Setenta.
Na
tradição Samaritana está presente apenas o Pentateuco (cinco primeiros livros
da Bíblia: Torá – Lei). Não modificaram seu cânon mesmo depois de novas edições
da Bíblia Hebraica.
O
Cânon de Jâmnia se fez necessário depois da dispersão dos judeus com a tomada
de Jerusalém pelas tropas de Tito no ano 70 d.C., a fim de resguardar a
integridade religiosa da nação naquela emergência. Este trabalho foi realizado
pelos fariseus em Jâmnia (Yabnéh) onde sua escola rabínica se tornou próspera.
O Cânon de Jâmnia excluiu de sua Bíblia sete livros sagrados (conhecidos como
deuterocanônicos: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, 1 e 2
Macabeus); além de fragmentos de Daniel (3,24-90; 13-14) e Ester (10,4-16,24).[10]
Este
texto de Jâmnia não continha vogais, por isso, foi realizado um exaustivo
trabalho – iniciado no século VI d.C. e terminado no século X – com a
finalidade de colocar sinais que indicassem as vogais das palavras, evitando
equívocos de interpretação. Estes sinais são pontos vocálicos que não modificam
a estrutura da palavra hebraica. O texto tornou-se conhecido como Massorá e os
compositores destes sinais como massoretas (“testemunhas da Tradição”).
Uma
terceira tradição, mais antiga que a massoreta é a de Alexandria. Esta é a
versão grega da Escritura Hebraica. A primeira referência a esta versão dá-se
por volta do ano 200 a.C. na chamada “Carta de Aristéias”. Segundo esta
correspondência, o rei do Egito, Ptolomeu II Filadelfo (287-247 a.C.)
encomendou, a pedido do responsável da – recém fundada – biblioteca de
Alexandria, Demétrio de Fálaro, uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Foi
enviada uma embaixada judaica ao Egito composta por seis membros de cada tribo
de Israel, somando 72 sábios. Daí provém o nome de “Tradução dos Setenta” ou
“Septuaginta” (LXX). Durante sete dias foram submetidos a 72 perguntas das
quais responderam com toda sabedoria. Em 72 dias sua missão estava terminada; a
tradução dos livros sagrados do hebraico para o grego chegava a seu curso.
Desde então a obra passou a fazer parte do acervo daquela biblioteca.[11]
As
descobertas de Qumran traziam manuscritos correspondentes a estas três
tradições. Isso significa um importante acervo para comparações e estudos das
versões vigentes até aquele momento (como, por exemplo, o texto em hebraico,
onde o mais antigo manuscrito conhecido datava do século IX d.C.). Como
sublinha o Pe. Dupont-Sommer,[12] esta descoberta não invalida os estudos já realizados
referentes à crítica, mas fornece material que possibilitará uma pesquisa mais
sólida.
O mapa do tesouro
O
que faríamos se nos fosse entregue um mapa de um tesouro? Acreditaríamos ter em
mãos um guia para encontrar riquezas incalculáveis? Ou pensaríamos ser isto uma
fraude qualquer?
Na
gruta 3Q foram encontrados rolos de cobre. Após averiguar o estado dos rolos e
tê-los preparado, o Pe. H. Wright Baker (da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Manchester) resolveu cortá-los em 23 tiras, a fim de ler o que
neles estava escrito.
Primitivamente
estes rolos pareciam estar unidos por rebites. Tudo indica que são três folhas
de cobre, medindo trinta centímetros por oitenta. Os caracteres gravados nos
rolos estão em hebraico. E o que estava escrito neles? Uma relação de tesouros!
Na
lista, 63 desses tesouros estavam descritos e sua localização indicada.
Inclusive constava haver uma segunda lista mais detalhada. A soma destas
preciosidades (ouro, prata, objetos sagrados para o culto, vestimentas,
substâncias odoríferas, etc.) somava 4.632 talentos, o que equivale mais ou
menos de 150 a 160 toneladas de material valioso. Tudo no território da
Palestina.
A
lista será verdadeira? Pode-se, pelo contrário, perguntar o que teria levado à
confecção de tais rolos, com a preocupação de escondê-los numa gruta, se tudo
fosse mera lenda…
Há
indícios históricos (documentais) de valores semelhantes ou superiores a esse,
como o caso narrado por Flávio Josefo, quando Pompeu exigiu cerca de 10.000
talentos por ocasião da tomada de Jerusalém;[13] ou quando Crasso – mais tarde
– se apoderou de 2.000 talentos do Templo nos quais Pompeu não havia tocado,
além de 8.000 talentos dos tesouros do Templo.[14] No entanto, não é provável
que este tesouro ao qual se referem os rolos de cobre, fosse do Templo, pois
este havia sido saqueado pelos romanos na tomada de Jerusalém no ano 70 d.C.
Uma
hipótese é a de que o tesouro pertencera a um grupo de judeus insurrectos da
Segunda Revolta contra Roma (132-135 d.C.), comandados por Bar-Kokheba (chamado
de “filho da estrela” por Justino e Eusébio)[15] mas, devido à aproximação das
legiões romanas, teriam julgado mais prudente espalhar o tesouro e alguns,
refugiados em Qumran, ali guardaram os rolos de cobre. Outra hipótese é que o
tesouro pertencera à Comunidade de Qumran, pois havia um encarregado de
administrar as riquezas pertencentes aos membros da comunidade.
O fragmento 7Q5
“De
fato, não tinham compreendido nada a respeito dos pães. O coração deles
continuava endurecido. Tendo atravessado o lago, foram para Genesaré e
atracaram” (Mc 6,52-53). Talvez o texto acima já tenha sido lido em várias
ocasiões ou contemplado na liturgia, mas ele traz uma grande mudança para os
estudos bíblicos.
Nas
descobertas de Qumran acreditava-se que todos os textos pertenciam ao Antigo
Testamento, mas o Pe. José O’Callaghan S.J. (professor de papirologia grega no
Instituto Pontifício Bíblico – Roma) publicou um estudo em março de 1972
intitulado “Papiros do Novo Testamento dentro da gruta 7 de Qumran?”, onde
estudos de papirologia indicavam que alguns textos de Qumran faziam parte do
Novo Testamento. Em especial o Evangelho de Marcos 6,52-53, fragmento
denominado como 7Q5 (a gruta 7 de Qumran e o número 5 é para identificá-lo
entre os demais papiros ali encontrados).
Com
o achado dos versículos 52 e 53 do Evangelho de S. Marcos, o tempo de “tradição
oral” que se supunha ser de quarenta anos depois da morte de Jesus Cristo, para
a redação final do Evangelho, se reduziria para vinte, contradizendo o que a
crítica pensava até então.
Acerca
desta hipótese, comenta o Pe. Martini – hoje cardeal – (em maio do mesmo ano de
1972, enquanto Reitor do Instituto Bíblico de Roma) que era uma hipótese
baseada em considerações graves e dignas de atenção, que precisava ser estudada
sob o ponto de vista paleográfico, papirológico e arqueológico. Ainda comenta
que algumas oportunidades novas e interessantes estavam se abrindo para avaliar
a origem dos Evangelhos. Conclui dizendo que era prematuro se ocupar desses
problemas antes que tenham sido examinados com mais cuidado os papiros e o
contexto em que foram descobertos.
Da
mesma forma, o vice-reitor do Instituto Bíblico de Roma, o Pe. Schökel, dizia
que a ciência ainda não teve tempo de se pronunciar. Mas que concretamente –
naquele momento – era uma hipótese séria e sólida.[16]
O
Pe. O’Callaghan encontra respaldo na ciência – como ele mesmo o atesta –
por meio da professora de Papirologia, Montevecchi, que foi presidente da
Associação Internacional de Papirólogos, e do Catedrático de Matemáticas, o Dr.
Albert Dou. Ambos são afins com a hipótese do Pe. O’Callaghan.[17]
Outros,
porém, são de tese contrária, como o Pe. Pierre Grelot (biblista do Instituto
Católico de Paris e membro da Comissão Pontifícia Bíblica). Numa entrevista
para 30 giorni em junho de 1991, acusava O’Callaghan de ter feito uma
conjectura completamente absurda, que tem um fim apologético.[18]
A
suposição do Pe. O’Callaghan é uma hipótese em estudo. Vale ressaltar que na
sétima gruta, ao contrário das demais (que continham a escrita hebraica ou
aramaica sobre pergaminho), os escritos estavam em grego sobre papiro.
Uma realidade atual
As
descobertas realizadas nas grutas e ruínas de Qumran não caíram no esquecimento
e ainda continuam fascinando o mundo. A Dra. Pnina Shor, chefe da Seção de
Conservação de Artefatos do Departamento de Antiguidades de Israel, foi a
encarregada de uma exposição de 17 artigos ocorrida em Toronto, no Royal
Ontario Museum, encerrada em 3 de janeiro deste ano.[19]
O
maior descobrimento arqueológico do século XX fez com que uma geração inteira
de estudiosos – para não dizer o mundo − dedicasse suas vidas para analisá-las.
O
tema ainda desperta interesse em estudiosos e muitos debates se fazem a
propósito desta descoberta. No entanto, a Providência somente permitiu
que estes manuscritos fossem encontrados quase vinte séculos depois de sua
inclusão nas grutas. Por que tanto tempo? Será que não havia reservado esta
descoberta para uma época em que a fé se tornou “passível de dúvida”, para
assim despertar novamente o senso religioso nos corações humanos?
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SCHEIFLER,
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[1]
Designação comum a terras ou rochas altas e íngremes à beira-mar, resultado da
erosão marinha (Dic. Aurélio).
[2]
Com 80 km de comprimento e 16 de largura, suas águas contêm 25% de salinidade.
Ao norte sua parte mais profunda atinge 400 metros. Cf. DAHLER, Etienne.
Lugares Bíblicos. Aparecida: Editora Santuário, 1997. p. 101-103.
[3]
Khirbeh, do árabe “ruína”.
[4]
Nesta época ainda não havia um governo único da religião, o que permitia a
multiplicidade de facções ou seitas, que de maneira alguma tem o sentido de
oposição como nos dias de hoje.
[5]
A origem desse nome é discutida, mas parece fazer referência à raiz semita “esah”,
que significa “conselho ou facção”; Fílon de Alexandria acredita que este nome
reporta ao grego “Essaioi”, “Essênios”, e “osioi”, “santos, puros”.
[6]
Alguns calculam serem mais de 900 manuscritos.
[7]
Deuterocanônicos são os livros da Bíblia que nem sempre e em todos os lugares
foram incluídos no cânon bíblico, por alguma dúvida que se tinha sobre eles,
mas posteriormente passaram a fazer parte da Bíblia. Isto não significa que
sejam menos inspirados do que os outros.
[8]
Cf. KELLER, Werner. … e a Bíblia tinha razão. São Paulo: Círculo do Livro,
1978. p. 410-411.
[9]
Houve controvérsias acerca das conseqüências que estes manuscritos trariam para
a fé. Entre elas se ressalta a opinião de A. P. Davies, que diz ser “o maior
desafio ao dogma cristão desde a teoria da evolução de Darwin” (“The Meaning of
the Dead Sea Scrolls”. New York, 1956). Apud SCHEIFLER, J. R. Asi nacieron los
Evangelios. Bilbao: Mensajero, 1967.
[10]
Cf. MONFORTE, Josemaría. Conhecer a Bíblia. Lisboa: DIEL-L, 1998. p. 98-102.
[11]
Cf. LIMA. Alessandro Ricardo. O Cânon Bíblico: A Origem da Lista dos Livros
Sagrados. São José dos Campos: Editora ComDeus, 2007. p. 17-25.
[12]
Cf. DUPONT-SOMMER, André. Les écrits esséniens découverts près de la mer Morte,
Paris, 1959, p. 19. Apud LAPERROUSAZ, E.-M. Os manuscritos do mar Morto. São
Paulo: Cultrix, 1961.
[13]
Cf. Antiguidades Judaicas, Trad. Vicente Pedroso, 14ª ed. Rio de Janeiro: CPAD,
2008. XIV, Cap. VIII, n. 577, p. 646.
[14]
Cf. Ibidem, XIV, Cap. XII, n. 584, p. 649-650.
[15]
CAVALLETTI, S. Dicionário patrístico e de antigüidades cristãs; organizado por
Angelo Di Berardino. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 208-209.
[16]
Cf. La Documentation Catholique: “A-t-on découvert des manuscrits du Nouveau
Testament dans les documents de Qumran?”. 21 mai 1972 – n. 1609, p. 487-489.
[17]
Cf. O`CALLAGHAN, José. Confirmaciones científicas sobre el fragmento de San
Marcos en Qumrán: 30 giorni, 8 (nº 82/83), 1994, pp 55-57; Los primeros
testimonios del Nuevo Testamento. Papirología neo-testamentaria. Córdoba: El
Almedro, 1995, p. 116-139.
[18]
Cf. MASSORI, Vittorio. Qumrán, séptima gruta. Publicado no n. 16 da revista
Atlántida: Edição autorizada de arvo.net.
[19]
Cf. Revista Arautos do Evangelho: “Palavras que mudaram o mundo”. n. 93,
setembro de 2009. p. 48-51.