quinta-feira, 11 de junho de 2015

A primeira vez

A primeira vez

É das aulas de catequese que guardo a primeira memória da Terra Santa. As páginas do catecismo vinham ilustradas com desenhos coloridos da Palestina ao tempo de Jesus. O ambiente e as paisagens eram-me estranhos e distantes e em nada me atraíam, mas aguçavam-me a curiosidade e povoavam a minha imaginação, servindo de cenário às leituras do Evangelho da Missa de Domingo.
Com o correr dos anos através das notícias do conflito israelo-árabe a Palestina foi adquirindo novos contornos para mim, como um lugar de guerra e violência e as reportagens que de lá me chegavam mostravam-me também uma terra agreste e difícil onde os israelitas iam fazendo o milagre de a transformar em terra arável e produtiva.
Era já adulto quando ouvi os primeiros testemunhos entusiasmados de peregrinos dos Lugares Santos. Porém, nunca me estimularam a ponto de me pôr a caminho para destino tão distante.
Corria o ano de 1994 quando nasceu a ideia de propor aos Servitas de Fátima, organização a que pertenço, uma Peregrinação à Terra Santa, a fim de celebrarmos os 70 anos da nossa fundação. Se o motivo parecia evidente, as razões verdadeiras ainda hoje não consigo identificar. A adesão foi grande e entusiasta. Éramos 150 os que em Novembro desse ano nos fizemos ao caminho. O programa fora corrigido com a ajuda de gente experimentada que já por lá tinha andado, mas ainda assim, seguia o itinerário tradicional proposto pelas agências de viagem. Parti com o coração cheio de sede de uma água que nunca tinha provado.
Lembro-me bem que o primeiro dia não me matou a sede. Gostei do que vi, em Jafa e Acre, com Missa no Monte Carmelo. Mas soube-me a pouco. Mas foi com o mergulhar na Galileia que tudo mudou: Nazaré, Tabor, Bem-Aventuranças, Cafarnaum… e o Mar da Galileia. Cada lugar visitado era uma experiência nova de alegria comovida. A estranheza de outrora transformava-se agora numa impressionante proximidade. Aquela terra tinha a ver comigo, com a minha vida, com aquilo que sou, com as coisas mais íntimas e mais profundas que habitam o meu coração.
Desta minha primeira passagem pela Galileia guardei dois momentos que nunca esquecerei: a subida ao Monte Tabor e a travessia de barco no Mar da Galileia. No Lugar da Transfiguração percebi finalmente a minha velha predilecção por aquela passagem dos Evangelhos e fiz minha a frase de Pedro, tantas vezes meditada: «Senhor, é bom estarmos aqui…»[1]. O Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades, em que o Jordão se transforma, parece que ali foi posto pelo Criador como uma bênção. Sereno e cheio de majestade, por ele se unem as margens separadas, dele vêm água e alimento. Tornou-se então evidente o uso que dele fez Jesus, tal é a eloquência que dali nos vem. Foi ao entardecer que largámos amarras e era já noite fechada quando regressámos. Parados a meio do Lago, evocámos a passagem da “tempestade acalmada” e a frase de Jesus «Porque temeis, homens de pouca fé?»[2] encheu o longo silêncio em que nos deixámos ficar, enquanto nos envolvia um vento morno vindo dos Montes Golan. Quando no dia seguinte deixámos a Galileia rumo ao Sul, sentia que ali ficava um bocadinho do meu coração.
Descemos ao longo do Vale do Jordão até ao Mar Morto para a partir daí subirmos a Jerusalém. A subida percorre de perto o antigo caminho dos peregrinos da Cidade Santa. Chegámos ao cimo do Monte Scopus, era já noite. Diante de mim Jerusalém! Dos minaretes vinha a toada dos mohazim convidando à oração enquanto se ouviam os sinos das Igrejas cristãs com o toque do Angelus. Fiquei mudo e estático por alguns minutos de olhos fixos no enorme domo dourado da Mesquita do Rochedo, no centro da esplanada do Templo. Dei por mim, de cara molhada, a dizer aos que estavam a meu lado: “Ainda ali não entrei e só sei que quero cá voltar.” Senti-me parte daquele povo escolhido que durante milénios, geração após geração, repetia este gesto, subindo à Cidade Santa, ao Templo do Senhor, tal como o próprio Jesus. Eram as seis da tarde.
Nos dias seguintes foi Ein Karim, onde nasceu o Benedictus[3], se continuou a Ave-Maria e se cantou pela primeira vez o Magnificat[4]; Belém, onde pude beijar o lugar do nascimento e cantar com a voz embargada «Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo Senhor»[5]; e o percorrer dos recantos da Jerusalém, velha de milénios, mas incrivelmente nova, actual, minha… cidade que é memória e sacramental… cenário verídico da história da minha salvação.
Invocar o Espírito Santo, em pleno Cenáculo, aproxima-nos da intimidade da Trindade; olhar a cidade em silêncio do alto do Dominus Flevit[6]; ajoelhar junto à pedra da Agonia no Gethsemani; seguir os passos de Cristo pela sua Via Dolorosa, tocar a rocha do Calvário e beijar a pedra do Sepulcro, misericordiosamente vazio para todo o sempre… e ficar serenamente sentado a poucos metros no «Noli me tangere»[7], como Madalena à espera do seu Rabuni
O regresso a casa foi com a memória de Emaus[8]. Que melhor maneira se poderia encontrar senão a de lembrarmos esse encontro em caminho, do Senhor com os seus? Retornar a casa com a certeza de que Ele está reconhecível no partir do pão que em cada Missa se retoma, transforma a experiência daqueles dias num compromisso de vida, numa verdadeira paixão missionária… com numa irresistível vontade de voltar e de comigo trazer todos e cada um dos cruzam a minha vida.
«Se de ti me não lembrar, Jerusalém, fique presa a minha língua…»[9]


Rui Corrêa d’Oliveira




[1] Mt 17, 4; Mc 9, 5; Lc 9, 33
[2] Mt 8, 24
[3] Lc 1, 67-80
[4] Lc 1 46-55
[5] Lc 2, 11
[6] Lc 19, 41
[7] Jo 20, 17
[8] Lc 24, 13-35
[9] Sl 137, 6

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