A primeira vez
É das aulas de catequese que
guardo a primeira memória da Terra Santa. As páginas do catecismo vinham
ilustradas com desenhos coloridos da Palestina ao tempo de Jesus. O ambiente e
as paisagens eram-me estranhos e distantes e em nada me atraíam, mas aguçavam-me
a curiosidade e povoavam a minha imaginação, servindo de cenário às leituras do
Evangelho da Missa de Domingo.
Com o correr dos anos através das
notícias do conflito israelo-árabe a Palestina foi adquirindo novos contornos para
mim, como um lugar de guerra e violência e as reportagens que de lá me chegavam
mostravam-me também uma terra agreste e difícil onde os israelitas iam fazendo
o milagre de a transformar em terra arável e produtiva.
Era já adulto quando ouvi os primeiros
testemunhos entusiasmados de peregrinos dos Lugares Santos. Porém, nunca me
estimularam a ponto de me pôr a caminho para destino tão distante.
Corria o ano de 1994 quando
nasceu a ideia de propor aos Servitas de Fátima, organização a que pertenço, uma
Peregrinação à Terra Santa, a fim de celebrarmos os 70 anos da nossa fundação.
Se o motivo parecia evidente, as razões verdadeiras ainda hoje não consigo
identificar. A adesão foi grande e entusiasta. Éramos 150 os que em Novembro
desse ano nos fizemos ao caminho. O programa fora corrigido com a ajuda de
gente experimentada que já por lá tinha andado, mas ainda assim, seguia o
itinerário tradicional proposto pelas agências de viagem. Parti com o coração
cheio de sede de uma água que nunca tinha provado.
Desta minha primeira passagem
pela Galileia guardei dois momentos que nunca esquecerei: a subida ao Monte
Tabor e a travessia de barco no Mar da Galileia. No Lugar da Transfiguração
percebi finalmente a minha velha predilecção por aquela passagem dos Evangelhos
e fiz minha a frase de Pedro, tantas vezes meditada: «Senhor, é bom estarmos aqui…»[1].
O Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades, em que o Jordão se transforma, parece que
ali foi posto pelo Criador como uma bênção. Sereno e cheio de majestade, por
ele se unem as margens separadas, dele vêm água e alimento. Tornou-se então evidente
o uso que dele fez Jesus, tal é a eloquência que dali nos vem. Foi ao
entardecer que largámos amarras e era já noite fechada quando regressámos. Parados
a meio do Lago, evocámos a passagem da “tempestade acalmada” e a frase de Jesus «Porque temeis, homens de pouca fé?»[2]
encheu o longo silêncio em que nos deixámos ficar, enquanto nos envolvia um
vento morno vindo dos Montes Golan. Quando
no dia seguinte deixámos a Galileia rumo ao Sul, sentia que ali ficava um
bocadinho do meu coração.
Descemos ao longo do Vale do
Jordão até ao Mar Morto para a partir daí subirmos a Jerusalém. A subida
percorre de perto o antigo caminho dos peregrinos da Cidade Santa. Chegámos ao
cimo do Monte Scopus, era já noite.
Diante de mim Jerusalém! Dos minaretes vinha a toada dos mohazim convidando à oração enquanto se ouviam os sinos das Igrejas
cristãs com o toque do Angelus. Fiquei mudo e estático por alguns minutos de
olhos fixos no enorme domo dourado da Mesquita do Rochedo, no centro da
esplanada do Templo. Dei por mim, de cara molhada, a dizer aos que estavam a
meu lado: “Ainda ali não entrei e só sei que quero cá voltar.” Senti-me parte
daquele povo escolhido que durante milénios, geração após geração, repetia este
gesto, subindo à Cidade Santa, ao Templo do Senhor, tal como o próprio Jesus.
Eram as seis da tarde.
Nos dias seguintes foi Ein Karim, onde nasceu o Benedictus[3],
se continuou a Ave-Maria e se cantou pela primeira vez o Magnificat[4];
Belém, onde pude beijar o lugar do nascimento e cantar com a voz embargada «Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo
Senhor»[5];
e o percorrer dos recantos da Jerusalém, velha de milénios, mas incrivelmente
nova, actual, minha… cidade que é memória e sacramental… cenário verídico da
história da minha salvação.
Invocar o Espírito Santo, em
pleno Cenáculo, aproxima-nos da intimidade da Trindade; olhar a cidade em
silêncio do alto do Dominus Flevit[6];
ajoelhar junto à pedra da Agonia no Gethsemani;
seguir os passos de Cristo pela sua Via Dolorosa, tocar a rocha do Calvário e
beijar a pedra do Sepulcro, misericordiosamente vazio para todo o sempre… e
ficar serenamente sentado a poucos metros no «Noli me tangere»[7],
como Madalena à espera do seu Rabuni…
O regresso a casa foi com a
memória de Emaus[8].
Que melhor maneira se poderia encontrar senão a de lembrarmos esse encontro em caminho, do Senhor com os
seus? Retornar a casa com a certeza de que Ele está reconhecível no partir do
pão que em cada Missa se retoma, transforma a experiência daqueles dias num
compromisso de vida, numa verdadeira paixão missionária… com numa irresistível
vontade de voltar e de comigo trazer todos e cada um dos cruzam a minha vida.
«Se de ti me não lembrar, Jerusalém, fique presa a minha língua…»[9]
Rui Corrêa d’Oliveira
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