12º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mc
4,35-41
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo
segundo São Marcos
Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus
discípulos:
«Passemos à outra margem do lago».
Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca
em que estava sentado.
Iam com Ele outras embarcações.
Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão
altas que enchiam a barca de água.
Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa
almofada.
Eles acordaram-n’O e disseram:
«Mestre, não Te importas que pereçamos?»
Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse
ao mar:
«Cala-te e está quieto».
O vento cessou e fez-se grande bonança.
Depois disse aos discípulos:
«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»
Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:
«Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe
obedecem?»
AMBIENTE
Na primeira parte do Evangelho segundo Marcos
(cf. Mc 1,14-8,30), Jesus é apresentado como o Messias que proclama o Reino de
Deus. Marcos procura aí demonstrar como Jesus, com palavras e com gestos,
anuncia um mundo novo (o “reino de Deus”), livre do egoísmo, da opressão, da
injustiça e de tudo o que escraviza os homens e os impede de ter acesso à vida
verdadeira. O texto que hoje nos é proposto deve ser visto neste ambiente.
O nosso texto começa com a indicação de que
Jesus decidiu passar “à outra margem”. A “outra margem” (do lago de Tiberíades,
evidentemente) é o território pagão da Decápole. A Decápole (“dez cidades”) era
o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde
Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga
de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos,
no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não
estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como
os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a
administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado
pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.
O episódio que Marcos nos narra, neste
domingo, passa-se durante a travessia do Lago de Tiberíades. O Lago de
Tiberíades, designado frequentemente por “Mar da Galileia”, é um lago de água
doce, alimentado sobretudo pelas águas do rio Jordão, com 12 quilómetros de
largura e 21 quilómetros de comprimento. As tempestades que se levantavam neste
“mar” podiam aparecer subitamente e ser especialmente violentas.
Para entendermos melhor o que está em causa
no episódio que hoje Marcos nos propõe, convém ter presente o que dissemos na
primeira leitura a propósito do que o “mar” significava para a mentalidade
judaica: era uma realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada, onde
residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar e onde estavam
os poderes maléficos que queriam destruir os homens… Só Deus, com o seu poder e
majestade, podia pôr limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas
forças descontroladas do caos que o mar encerrava.
Mais do que uma crónica fiel de uma viagem de
Jesus com os discípulos através do Lago de Tiberíades, a narração que Marcos
nos apresenta deve ser vista como uma página de catequese. Usando elementos com
uma forte carga simbólica (o mar, o barco, a tempestade, a noite, o sono de
Jesus), Marcos apresenta-nos uma reflexão sobre a comunidade dos discípulos em
marcha pela história. Marcos escreve numa época em que a Igreja de Jesus
enfrenta sérias “tempestades” (perseguição de Nero, problemas internos causados
pela diferença de perspectivas entre judeo-cristãos e pagano-cristãos,
dificuldades sentidas pelas comunidades em encontrar o caminho para o futuro…);
e pretende dar sugestões aos crentes acerca do caminho a percorrer.
MENSAGEM
Reparemos, em primeiro lugar, no “ambiente”
em que Marcos nos situa: no mar, ao anoitecer (vers. 35). Situar o barco com Jesus
e os discípulos “no mar”, é colocá-los num ambiente hostil, adverso, perigoso,
caótico, rodeados pelas forças que lutam contra Deus e contra a felicidade do
homem. Por outro lado, a “noite” é o tempo das trevas, da falta de luz; aparece
como elemento ligado com o medo, com o desânimo, com a falta de perspectivas. O
“mar” e a “noite” definem uma realidade de dificuldade, de hostilidade, de
incompreensão.
No “barco” vão Jesus e os discípulos (vers.
36). O “barco” é, na catequese cristã, o símbolo da comunidade de Jesus que
navega pela história. Jesus está no “barco”, mas são os discípulos que se
encarregam da navegação, pois é a eles que é confiada a tarefa de conduzir a
comunidade pelo mar da vida.
O “barco” dirige-se “para a outra margem”
(vers. 35b), ao encontro das terras dos pagãos. Com este dado Marcos alude,
muito provavelmente, à missão da comunidade cristã, convidada por Jesus a ir ao
encontro de todos os homens para lhes levar Jesus e a sua proposta libertadora.
Durante a travessia, Jesus “dorme” (vers.
38). O “sono” de Jesus durante a viagem refere-se, possivelmente, à sua
aparente ausência ao longo da “viagem” que a comunidade cristã faz pela
história. Com frequência os discípulos, ocupados em dirigir o “barco”, têm a
sensação de que estão sós, abandonados à sua sorte e que Jesus não está com
eles a enfrentar as vicissitudes da viagem. Na verdade, Jesus está com eles no
“barco”; Ele prometeu ficar com eles “até ao fim do mundo”.
A “tempestade” (vers. 37) significa as
dificuldades que o mundo opõe à missão dos discípulos. É provável que Marcos
estivesse a pensar numa “tempestade” concreta, talvez a perseguição de Nero aos
cristãos de Roma, durante a qual foram mortos Pedro e Paulo, bem como muitos
outros cristãos (anos 64-68. O Evangelho segundo Marcos deve ter aparecido
nessa altura); mas a “tempestade” refere-se também a todos os momentos de
crise, de perseguição, de hostilidade que os discípulos terão de enfrentar ao
longo do seu caminho histórico, até ao fim dos tempos.
Jesus, despertado pelos discípulos, acalma a
fúria do mar e do vento, com a sua Palavra imperiosa e dominadora (vers. 39).
Já dissemos atrás que, na teologia judaica, só Deus era capaz de dominar o mar
e as forças hostis que se albergavam no mar. Jesus aparece assim, como o Deus que
acompanha a difícil caminhada dos discípulos pelo mundo e que cuida deles no
meio das dificuldades e da hostilidade do mundo.
Depois de aclamar o mar e o vento, Jesus
dirige-Se aos discípulos e repreende-os pela sua falta de fé (vers. 40: “porque
estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”). Os discípulos, depois da
caminhada feita com Jesus, já deviam saber que Ele nunca está ausente, nem
alheado da vida da sua comunidade. Eles não podem esquecer que, em todas as
circunstâncias, Jesus vai com eles no mesmo “barco” e que, por isso, nada têm a
temer. A comunidade de Jesus tem de estar consciente de que Jesus está sempre
presente e que, portanto, as tempestades da história não poderão impedi-los de
concretizar no mundo a missão que lhes foi confiada.
O nosso texto termina com o “temor” dos
discípulos e a pergunta que eles fazem uns aos outros: “Quem é este, a quem até
o vento e o mar obedecem?” (vers. 41). O “temor” define o estado de espírito do
homem diante da divindade. No universo bíblico, este “temor” não apresenta
carácter de pânico ou de medo servil, mas encerra um misterioso poder de
atracção que se traduz em obediência, entrega, confiança, entusiasmo. Tal
atitude positiva deriva da experiência que o crente israelita tem de Deus:
Jahwéh é um Deus presente, que guia o seu Povo com uma solicitude paternal e
maternal. Por isso, o crente, se por um lado tem consciência da omnipotência de
Deus, por outro lado sabe que pode confiar incondicionalmente n’Ele e
entregar-se nas suas mãos. A resposta à questão já está, portanto, dada: o
“temor” dos discípulos significa que eles reconhecem que Jesus é o Deus
presente no meio dos homens, e a quem os homens são convidados a aderir, a
confiar, a obedecer com total entrega.
A catequese que Marcos nos propõe é, portanto,
sobre a caminhada dos discípulos, em missão no mundo… Marcos garante-nos que
Cristo está sempre com os discípulos, mesmo quando parece ausente. Os
discípulos nada têm a temer, porque Cristo vai com eles, ajudando-os a vencer
as forças que se opõem à vida e à salvação dos homens.
ACTUALIZAÇÃO
¨ A imagem de um barco cheio de discípulos
convidados por Jesus a passar “à outra margem do lago” e a dar testemunho dessa
vida nova que Deus quer oferecer aos homens é uma boa definição de Igreja.
Antes de mais, o nosso texto convida-nos a tomar consciência de que a
comunidade que nasce de Jesus é uma comunidade missionária, cuja tarefa é ir ao
encontro dos homens prisioneiros do egoísmo e do pecado para lhes apresentar a
Boa Nova da libertação. Os discípulos de Jesus não podem ficar comodamente
instalados nos seus espaços seguros e protegidos, defendidos dos perigos do
mundo e alheados dos problemas e necessidades dos homens; mas a Igreja tem de
ser uma comunidade empenhada na transformação do mundo, que se preocupa em
levar aos homens – a todos os homens, sobretudo aos pobres e marginalizados –
com palavras e com gestos a proposta libertadora do Reino.
¨ O caminho percorrido pela comunidade de
Jesus em missão no mundo é, muitas vezes, um caminho marcado por duras
tempestades. Quando a comunidade procura ser fiel à sua vocação e levar a
libertação aos homens, confronta-se frequentemente com as forças da injustiça,
da opressão e do pecado que não estão interessadas em que o anúncio libertador
de Jesus ecoe no mundo (às vezes, essas forças de injustiça e de opressão
disfarçam-se com as atraentes roupagens da “moda”, do “politicamente correcto”
ou do “socialmente aceitável”)… Por isso, a comunidade de Jesus conhece, ao
longo da sua caminhada, a oposição, a incompreensão, a perseguição, as calúnias
e até a morte… No entanto, os discípulos devem estar conscientes de que esse
cenário é inevitável e resulta da sua fidelidade ao caminho de Jesus.
¨ Muitas vezes, ao longo da caminhada, os
discípulos sentem uma tremenda solidão e, confrontados com a oposição e a incompreensão
do mundo, experimentam a sua fragilidade e impotência. Parece que Jesus os
abandonou; e o silêncio de Jesus desconcerta-os e angustia-os. O Evangelho
deste domingo garante-nos que Jesus nunca abandona o barco dos discípulos. Ele
está sempre lá, embarcado com eles na mesma aventura, dando-lhes segurança e
paz. Nos momentos de crise, de desânimo, de medo, os discípulos têm de ser
capazes de descobrir a presença – às vezes silenciosa, mas sempre amiga e
reconfortante – de Jesus ao seu lado, no mesmo barco.
¨ “Ainda não tendes fé?” – pergunta Jesus aos
discípulos… Se os discípulos tivessem fé, não teriam medo e não sentiriam a
necessidade de “acordar” Jesus. Estariam conscientes da presença de Jesus ao
seu lado em todos os momentos e não estariam à espera de uma intervenção mais
ou menos mágica de Jesus para os livrar das dificuldades. O verdadeiro
discípulo é aquele que aderiu a Jesus, que vive em permanente comunhão e
intimidade com Jesus, que está em permanente escuta de Jesus, que caminha com
Jesus, que a cada instante descobre a presença reconfortante de Jesus ao seu
lado. Ele conta sempre com Jesus e não se lembra de Jesus apenas nos momentos
de dificuldade e de crise…
¨ A intervenção de Jesus provoca o “temor”
dos discípulos. Dissemos atrás que o “temor” significa, neste contexto, que os
discípulos reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens e a quem
os homens são convidados a aderir, a confiar, a obedecer com total entrega.
Esta “catequese” convida-nos a assumir, diante desse Jesus que nos acompanha
sempre, uma atitude semelhante (de “temor”) e a aderir incondicionalmente às
suas propostas, a confiar n’Ele, a segui-l’O nesse caminho do amor e do dom da
vida que Ele nos veio propor.



