domingo, 21 de junho de 2015

Ao ritmo da Palavra

12º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 4,35-41


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos:
«Passemos à outra margem do lago».
Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado.
Iam com Ele outras embarcações.
Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. 
Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada.
Eles acordaram-n’O e disseram:
«Mestre, não Te importas que pereçamos?»
Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar:
«Cala-te e está quieto».
O vento cessou e fez-se grande bonança.
Depois disse aos discípulos:
«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»
Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:
«Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

AMBIENTE
Na primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30), Jesus é apresentado como o Messias que proclama o Reino de Deus. Marcos procura aí demonstrar como Jesus, com palavras e com gestos, anuncia um mundo novo (o “reino de Deus”), livre do egoísmo, da opressão, da injustiça e de tudo o que escraviza os homens e os impede de ter acesso à vida verdadeira. O texto que hoje nos é proposto deve ser visto neste ambiente. 

O nosso texto começa com a indicação de que Jesus decidiu passar “à outra margem”. A “outra margem” (do lago de Tiberíades, evidentemente) é o território pagão da Decápole. A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.
O episódio que Marcos nos narra, neste domingo, passa-se durante a travessia do Lago de Tiberíades. O Lago de Tiberíades, designado frequentemente por “Mar da Galileia”, é um lago de água doce, alimentado sobretudo pelas águas do rio Jordão, com 12 quilómetros de largura e 21 quilómetros de comprimento. As tempestades que se levantavam neste “mar” podiam aparecer subitamente e ser especialmente violentas.
Para entendermos melhor o que está em causa no episódio que hoje Marcos nos propõe, convém ter presente o que dissemos na primeira leitura a propósito do que o “mar” significava para a mentalidade judaica: era uma realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada, onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar e onde estavam os poderes maléficos que queriam destruir os homens… Só Deus, com o seu poder e majestade, podia pôr limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas forças descontroladas do caos que o mar encerrava.
Mais do que uma crónica fiel de uma viagem de Jesus com os discípulos através do Lago de Tiberíades, a narração que Marcos nos apresenta deve ser vista como uma página de catequese. Usando elementos com uma forte carga simbólica (o mar, o barco, a tempestade, a noite, o sono de Jesus), Marcos apresenta-nos uma reflexão sobre a comunidade dos discípulos em marcha pela história. Marcos escreve numa época em que a Igreja de Jesus enfrenta sérias “tempestades” (perseguição de Nero, problemas internos causados pela diferença de perspectivas entre judeo-cristãos e pagano-cristãos, dificuldades sentidas pelas comunidades em encontrar o caminho para o futuro…); e pretende dar sugestões aos crentes acerca do caminho a percorrer.

MENSAGEM
Reparemos, em primeiro lugar, no “ambiente” em que Marcos nos situa: no mar, ao anoitecer (vers. 35). Situar o barco com Jesus e os discípulos “no mar”, é colocá-los num ambiente hostil, adverso, perigoso, caótico, rodeados pelas forças que lutam contra Deus e contra a felicidade do homem. Por outro lado, a “noite” é o tempo das trevas, da falta de luz; aparece como elemento ligado com o medo, com o desânimo, com a falta de perspectivas. O “mar” e a “noite” definem uma realidade de dificuldade, de hostilidade, de incompreensão.
No “barco” vão Jesus e os discípulos (vers. 36). O “barco” é, na catequese cristã, o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história. Jesus está no “barco”, mas são os discípulos que se encarregam da navegação, pois é a eles que é confiada a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida.
O “barco” dirige-se “para a outra margem” (vers. 35b), ao encontro das terras dos pagãos. Com este dado Marcos alude, muito provavelmente, à missão da comunidade cristã, convidada por Jesus a ir ao encontro de todos os homens para lhes levar Jesus e a sua proposta libertadora.
Durante a travessia, Jesus “dorme” (vers. 38). O “sono” de Jesus durante a viagem refere-se, possivelmente, à sua aparente ausência ao longo da “viagem” que a comunidade cristã faz pela história. Com frequência os discípulos, ocupados em dirigir o “barco”, têm a sensação de que estão sós, abandonados à sua sorte e que Jesus não está com eles a enfrentar as vicissitudes da viagem. Na verdade, Jesus está com eles no “barco”; Ele prometeu ficar com eles “até ao fim do mundo”.
A “tempestade” (vers. 37) significa as dificuldades que o mundo opõe à missão dos discípulos. É provável que Marcos estivesse a pensar numa “tempestade” concreta, talvez a perseguição de Nero aos cristãos de Roma, durante a qual foram mortos Pedro e Paulo, bem como muitos outros cristãos (anos 64-68. O Evangelho segundo Marcos deve ter aparecido nessa altura); mas a “tempestade” refere-se também a todos os momentos de crise, de perseguição, de hostilidade que os discípulos terão de enfrentar ao longo do seu caminho histórico, até ao fim dos tempos.
Jesus, despertado pelos discípulos, acalma a fúria do mar e do vento, com a sua Palavra imperiosa e dominadora (vers. 39). Já dissemos atrás que, na teologia judaica, só Deus era capaz de dominar o mar e as forças hostis que se albergavam no mar. Jesus aparece assim, como o Deus que acompanha a difícil caminhada dos discípulos pelo mundo e que cuida deles no meio das dificuldades e da hostilidade do mundo.
Depois de aclamar o mar e o vento, Jesus dirige-Se aos discípulos e repreende-os pela sua falta de fé (vers. 40: “porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”). Os discípulos, depois da caminhada feita com Jesus, já deviam saber que Ele nunca está ausente, nem alheado da vida da sua comunidade. Eles não podem esquecer que, em todas as circunstâncias, Jesus vai com eles no mesmo “barco” e que, por isso, nada têm a temer. A comunidade de Jesus tem de estar consciente de que Jesus está sempre presente e que, portanto, as tempestades da história não poderão impedi-los de concretizar no mundo a missão que lhes foi confiada. 

O nosso texto termina com o “temor” dos discípulos e a pergunta que eles fazem uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (vers. 41). O “temor” define o estado de espírito do homem diante da divindade. No universo bíblico, este “temor” não apresenta carácter de pânico ou de medo servil, mas encerra um misterioso poder de atracção que se traduz em obediência, entrega, confiança, entusiasmo. Tal atitude positiva deriva da experiência que o crente israelita tem de Deus: Jahwéh é um Deus presente, que guia o seu Povo com uma solicitude paternal e maternal. Por isso, o crente, se por um lado tem consciência da omnipotência de Deus, por outro lado sabe que pode confiar incondicionalmente n’Ele e entregar-se nas suas mãos. A resposta à questão já está, portanto, dada: o “temor” dos discípulos significa que eles reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens, e a quem os homens são convidados a aderir, a confiar, a obedecer com total entrega.
A catequese que Marcos nos propõe é, portanto, sobre a caminhada dos discípulos, em missão no mundo… Marcos garante-nos que Cristo está sempre com os discípulos, mesmo quando parece ausente. Os discípulos nada têm a temer, porque Cristo vai com eles, ajudando-os a vencer as forças que se opõem à vida e à salvação dos homens.

ACTUALIZAÇÃO
¨ A imagem de um barco cheio de discípulos convidados por Jesus a passar “à outra margem do lago” e a dar testemunho dessa vida nova que Deus quer oferecer aos homens é uma boa definição de Igreja. Antes de mais, o nosso texto convida-nos a tomar consciência de que a comunidade que nasce de Jesus é uma comunidade missionária, cuja tarefa é ir ao encontro dos homens prisioneiros do egoísmo e do pecado para lhes apresentar a Boa Nova da libertação. Os discípulos de Jesus não podem ficar comodamente instalados nos seus espaços seguros e protegidos, defendidos dos perigos do mundo e alheados dos problemas e necessidades dos homens; mas a Igreja tem de ser uma comunidade empenhada na transformação do mundo, que se preocupa em levar aos homens – a todos os homens, sobretudo aos pobres e marginalizados – com palavras e com gestos a proposta libertadora do Reino.

¨ O caminho percorrido pela comunidade de Jesus em missão no mundo é, muitas vezes, um caminho marcado por duras tempestades. Quando a comunidade procura ser fiel à sua vocação e levar a libertação aos homens, confronta-se frequentemente com as forças da injustiça, da opressão e do pecado que não estão interessadas em que o anúncio libertador de Jesus ecoe no mundo (às vezes, essas forças de injustiça e de opressão disfarçam-se com as atraentes roupagens da “moda”, do “politicamente correcto” ou do “socialmente aceitável”)… Por isso, a comunidade de Jesus conhece, ao longo da sua caminhada, a oposição, a incompreensão, a perseguição, as calúnias e até a morte… No entanto, os discípulos devem estar conscientes de que esse cenário é inevitável e resulta da sua fidelidade ao caminho de Jesus.

¨ Muitas vezes, ao longo da caminhada, os discípulos sentem uma tremenda solidão e, confrontados com a oposição e a incompreensão do mundo, experimentam a sua fragilidade e impotência. Parece que Jesus os abandonou; e o silêncio de Jesus desconcerta-os e angustia-os. O Evangelho deste domingo garante-nos que Jesus nunca abandona o barco dos discípulos. Ele está sempre lá, embarcado com eles na mesma aventura, dando-lhes segurança e paz. Nos momentos de crise, de desânimo, de medo, os discípulos têm de ser capazes de descobrir a presença – às vezes silenciosa, mas sempre amiga e reconfortante – de Jesus ao seu lado, no mesmo barco.

¨ “Ainda não tendes fé?” – pergunta Jesus aos discípulos… Se os discípulos tivessem fé, não teriam medo e não sentiriam a necessidade de “acordar” Jesus. Estariam conscientes da presença de Jesus ao seu lado em todos os momentos e não estariam à espera de uma intervenção mais ou menos mágica de Jesus para os livrar das dificuldades. O verdadeiro discípulo é aquele que aderiu a Jesus, que vive em permanente comunhão e intimidade com Jesus, que está em permanente escuta de Jesus, que caminha com Jesus, que a cada instante descobre a presença reconfortante de Jesus ao seu lado. Ele conta sempre com Jesus e não se lembra de Jesus apenas nos momentos de dificuldade e de crise…

¨ A intervenção de Jesus provoca o “temor” dos discípulos. Dissemos atrás que o “temor” significa, neste contexto, que os discípulos reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens e a quem os homens são convidados a aderir, a confiar, a obedecer com total entrega. Esta “catequese” convida-nos a assumir, diante desse Jesus que nos acompanha sempre, uma atitude semelhante (de “temor”) e a aderir incondicionalmente às suas propostas, a confiar n’Ele, a segui-l’O nesse caminho do amor e do dom da vida que Ele nos veio propor.



segunda-feira, 15 de junho de 2015

O que é a “Terra Santa”?


REFLEXÃO – A resposta poderia parecer evidente, no entanto a expressão “Terra Santa” evoca, por si só, milénios de história: as histórias de diferentes povos e de diferentes países. Do ponto de vista geográfico, bíblico, espiritual, sem esquecer implicações políticas ou apolíticas desta denominação, a questão “o que é a Terra Santa?” merece ser formulada não para se obter uma resposta convencional, mas para convidar à reflexão.

Um pouco de geografia bíblica


As peregrinações à Terra Santa multiplicam-se e a expressão é retomada um pouco por todo o lado. No entanto, a definição histórica e geográfica pode mudar segundo os pontos de vista. Para os cristãos, é o nome dado à região onde nasceu e viveu Jesus, com uma importância especial para Jerusalém onde Ele morreu e ressuscitou. O que hoje corresponderia às fronteiras de Israel e do território sírio anexado dos montes Goulão (mais ou menos a região de Banyas, Paneas ou Cesareia de Filipe), a Palestina englobava (Cisjordânia e Faixa de Gaza) o lado meridional do Líbano, uma parte da Jordânia (Betâmia- além-Jordão) assim como o Egipto nomeadamente com o episódio da fuga para o Egipto da Sagrada Família.

O nome de Palestina foi inventado pelos Romanos dois séculos depois de Jesus e não aparece na Bíblia. Nos Evangelhos são utilizados os termos Galileia, Samaria, Judeia, as províncias romanas. Quanto à expressão “Terra Santa” ela não aparece senão duas vezes na Bíblia, no Antigo Testamento, primeiro no livro do Êxodo (Ex 3,5) quando o Senhor manifesta a sua presença a Moisés através da sarça-ardente. É aí que Deus diz a Moisés: “Tira as sandálias dos teus pés pois a terra que pisas é uma terra santa”. Depois, no livro de Zacarias (2.12), “O Eterno possuirá Judá como a sua parte na terra santa”. Terra Santa será assim onde se dão os acontecimentos do conjunto da Bíblia e não somente os do Evangelho. Ur de onde partiu Abraão, o Egipto de que foge Moisés, a Síria, o Líbano etc…Deus promete a Abraão uma terra que se estende “desde o rio do Egipto até ao grande rio, o rio Eufrates”(Génese 15,18) que inclui o Egipto e a Mesopotâmia. Mais tarde Deus promete a Terra de Canaã, hoje Israel, e a Palestina.

O termo Israel aparece pela primeira vez na Bíblia para designar o novo nome de Jacó, filho de Isac e neto de Abraão. (Gens. 32, 22-29) quando luta com um anjo que lhe diz “Jacob não será mais o teu nome, mas sim Israel, porque tu lutaste contra os poderes celestes e humanas e continuaste forte”. Israel significa então “o que luta com Deus é forte”. Depois da sua volta do Egipto, é Salomão que leva o reino de Israel ao seu apogeu, reunindo as doze tribos de Judá. O reino desaparece depois de Nabucodonosor se apropriar da região e ter deportado a população judia para a Babilónia, em 721 A.C. Em seguida, foi em 1948, na declaração de Independência que o novo Estado toma o nome de Israel.

Mas voltemos às Escrituras, a Terra Santa corresponde assim à Terra onde Deus se revelou aos patriarcas (Abraão, Isac e Jacó), aos profetas e ao povo de Israel. É também a terra onde nasceu a Igreja e onde o Evangelho começou a ser proclamado. Será então preciso incluir também os locais por onde os Apóstolos, que são os primeiros a proclamar o Evangelho, passaram: Roma, Chipre, Turquia, Grécia…o que tornaria “santa” uma grande parte do planeta Terra! Os Cruzados, por exemplo, não hesitaram em ter uma visão avançada para o seu tempo: para eles Terra Santa designava toda a região que ia do Jordão a Leste e o mar Mediterrâneo a Oeste. O Eufrates a Norte e o golfo de Aqaba a Sul. Estabeleceram, nomeadamente, os estados Latinos nas estradas que os levavam ao reino de Jerusalém terrestre: os Reinos de Edessa, de Trípoli, de Antioquia e mais tarde de Chipre. Uma geografia que incluía os locais percorridos pelos Apóstolos como S. Paulo.

Será que a Terra Santa cujo caracter espiritual transcende qualquer outro ponto de vista, não pode ser limitada por fronteiras unicamente terrestres?

Para lá das clivagens e das fronteiras, peregrinar na “Terra Santa.”








Peregrinos para o Santo Sepulcro
Miniatura do século XV



Falar em Terra Santa será uma forma de se posicionar para além das clivagens políticas? Evitar-se-ia assim ter de se de limitar geograficamente ou não nomear uma realidade para melhor negar outra. É aliás a expressão utilizada pela Santa Sé para evocar o conjunto da visita do Papa Francisco, em Maio de 2014, quando teve encontros com personalidades oficiais de três países diferentes. A Jordânia, a Palestina e Israel. A Terra Santa teria assim uma vocação espiritual para lá das fronteiras humanas: ser um porto de paz e luz para o mundo inteiro.

Hoje, a Terra Santa e um local de peregrinação: só entre Janeiro e Maio de 2014, 1 milhão e 400 mil peregrinos entraram no Santo Sepulcro. O recente conflito em Gaza e a instabilidade da região, em geral, diminuíram muito o número de peregrinações, mas os peregrinos continuam a vir apesar de tudo. Se os cristãos vêm em grande número colher os frutos de uma experiência tangível no país da Bíblia ou do “Quinto Evangelho”, muitas pessoas ateias ou em busca de algo, que vêm como simples turistas, nunca ficam insensíveis face à beleza única desta região.

Eva Maurer Morio

(in Patriarcado latino de Jerusalém www.pt.lpj.org)

domingo, 14 de junho de 2015

O que é o Statu Quo? (2)

O Statu quo é uma regra não escrita, que advém dos usos das comunidades que partilham o Santo Sepulcro.

Estas comunidades vivem juntas na Igreja: dez irmãos franciscanos no convento, os Gregos e os arménios em células e os Etíopes nos sótãos. O Padre Stéphane, guardião do Convento de São Salvador, explica que “tal facto pode parecer, à primeira vista, desagradável, mas é algo de maravilhoso pois todas as igrejas estão reunidas à volta do Túmulo Vazio, à volta da mesma Ressurreição, da mesma fé. O statu quo é viver em conjunto enquanto, por vezes, é muito mais cómodo estar sozinho em sua casa. Mas o statu quo faz-nos sair da nossa zona de conforto e obriga-nos a viver com o outro”.


O Ocidental no Oriente não pode impor um relacionamento ocidental. A Igreja latina é a única ocidental. O que pode chocar um peregrino a quem por vezes é difícil compreender que o Santo Sepulcro não é uma catedral como em França ou Itália. É a Catedral de todas as Igrejas de Jerusalém.

“Quando um peregrino fica encantado com o souk, continua o Padre Stéphane, ele gosta do ambiente que aí reina com casas de judeus israelitas por cima das lojas dos comerciantes muçulmanos isto simboliza, para ele, o Oriente. O Santo Sepulcro é a imagem do bairro que o cerca: um alegre bazar”. O peregrino português pode ter por vezes a presunção inconsciente de estar no seu país quando entra no Santo Sepulcro. “Esquece-se, por vezes que a Igreja se difundiu e se inspirou no terreno cultural em que ela se enraizou. Ora esta Igreja de Jerusalém que é o pulmão destas igrejas, que todas nascem de Jerusalém e geram a Igreja”

Há seis Igrejas no Santo Sepulcro: duas africanas (as igrejas copta e etíope), duas europeias (as latina e grega ortodoxa) e duas igrejas asiáticas (as dos arménios e dos siríacos). “Cada continente está geograficamente representado à volta de Jerusalém. O Santo Sepulcro é Jerusalém no centro do mundo. O umbigo do mundo é o Santo Sepulcro, logo Jerusalém. É daí que tudo parte e é aí que todas as comunidades voltam, atraídas como por um imame”.

Seis Igrejas vivem juntas, fala-se portanto aí seis línguas diferentes. Isto significa que é preciso comunicar com o outro numa língua que não é a sua língua materna. Pode, por vezes, ser difícil se compreender e há, de vez em quando, mal-entendidos. No entanto, durante oito séculos, diferentes comunidades viveram juntas em redor do Túmulo, (as portas estavam fechadas e só se abriam para deixar entrar um peregrino que tivesse pago uma taxa, as comunidades viviam aí encerradas). 

Descobre-se então, para além das diferenças culturais, um irmão que partilha a mesma fé. A grande diferença é cultural não teológica. “se eu encontrar um grego ortodoxo em Portugal ele estará vestido da mesma maneira que eu no meu país e falará com certeza a mesma língua do que eu. Aqui, o meu irmão cristão está mais em sua casa, se me permitirem a expressão, Eu aprendo a amá-lo tal como ele é”,  precisa o Padre Stéphane. 

A perda de referências, que o pequeno espaço onde se cruzam tantas pessoas, induz em confusão. O Padre Stéphane esclarece-nos: “O grupo de peregrinos toma, de repente, consciência que ele não está com a sua Igreja, no centro do mundo. O peregrino é bombardeado com diferentes manifestações de fé. Ele é, de repente e humildemente um entre tantos outros”.

O Santo Sepulcro é um lugar de ecumenismo quotidiano desde há séculos. As comunidades que todos os dias giram à volta do Santo Sepulcro são como satélites que gravitam à volta do mesmo astro: o sol da Ressurreição.

Eva Maurer Morio


(in www.lpj@org.com)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O que é o "Statu Quo"?

TERRA SANTA - Se o Santo Sepulcro deixa, por vezes, os peregrinos perplexos numa primeira visita, o regulamento ou a trama territorial do local pode deixá-los estupefactos. 

Voltando ao “statu quo” que rege o Santo Sepulcro e os lugares santos mais importantes da Terra Santa. Um texto imutável que imortaliza a mais célebre das escadas da fachada do lugar mais Santo da Cristandade. Um único “statu quo” regulamenta cerca de 150 basílicas do Santo Sepulcro e da Natividade, o oratório da Ascensão e a igreja do Túmulo da Virgem. Este “statu quo” definido pelos “firmans” [decreto durante o Império Otomano] de 1852 e 1853 tinha por objectivo pôr termo às querelas entre comunidades cristãs sobre a propriedade dos Lugares Santos. Regulamentando a divisão territorial e as procissões, o texto apazigua uma série de motivos de discórdia. Cento e cinquenta anos mais tarde, alimentará os “faits divers” dos media internacionais com as famosas querelas de 2002 (uma cadeira posta à sombra num dia de calor. Resultado: 11 feridos hospitalizados) e a de 2008 (intervenção da polícia para separar os protagonista de uma cena de pugilato, depois da descoberta de uma porta deixada aberta a seguir a uma procissão). O que é então verdadeiramente o “statu quo”?

Um pouco de história. Depois da conquista islâmica, as comunidades cristãs viveram, lado a lado, durante séculos, apesar das profundas diferenças de dogma, de rito e de língua. Uma decisão tomada por Saladino em 1187, institui uma família muçulmana como proprietária das chaves e uma outra família muçulmana como guarda das portas do Santo Sepulcro. Assim nenhuma comunidade cristã possui o Lugar Santo e Saladino controla então a entrada do local, realizando assim uma lucrativa entrada de dinheiro.

Os franciscanos presentes na Terra Santa desde 1335, adquiriram numerosas propriedades nos Lugares Santos. A partir da implicação das potências ocidentais no conflito com o Império Otomano em 1662, os Lugares Santos tornaram-se moeda de troca, durante todos os séculos XVII e XVIII, usada pelos embaixadores das potências ocidentais com o Império Otomano do qual os gregos eram súbditos. 

No séc. XIX, o sultão otomano consagra em dois “firmans” o “status quo”, regulamentando assim o litígio sobre a propriedade dos Lugares Santos. É ainda hoje a referência para resolver as questões relativas à gestão dos Lugares, desde uma simples lâmpada de procissão até às grandes obras de restauro (como, neste momento, as da basílica da Natividade). Um regulamento preciso, mas impossível de encontrar. Cada passo de cada rito é regulamentado ao pormenor, mas como não foi redigido nenhum texto oficial quando da decisão otomana, faz-se uso na realidade de notas privadas. A tradição faz o resto e tudo está hoje gravado no mármore. No entanto, o “statu quo” não intervém nas liturgias somente do desenrolar das cerimónias. 

O Santo Sepulcro está ocupado por três Igrejas que aí vivem: os gregos ortodoxos que ocupam a maior parte do edifício, os Latinos representados pelos franciscanos e os Arménios. Mais tarde, chegaram com a permissão dos três, os Etiópios ortodoxos que moram por cima do telhado da capela de Santa Helena, os Coptas e os Siríacos que obtiveram capelas. Voltemos às portas: o regulamento precisa que só uma das três comunidades residentes pode pedir para abrirem a Igreja. Chama-se a família muçulmana guardiã da porta que vai procurar a outra família para ter a chave e, então, abrem-se as portas. 

No respeitante à limpeza, o adro da Igreja é varrido pelos gregos que zelam pela sua limpeza, enquanto os latinos limpam os degraus que conduzem à capela dos Francos (na entrada, à direita) e as lajes do recinto que estão mais próximas dos degraus. Outro exemplo: A limpeza da Pedra da Unção é feita, à vez, pelas três comunidades. Estão aí suspensas oito lamparinas, quatro pertencem aos Gregos, duas aos Arménios, duas aos latinos e uma aos Coptas. Na capela do Anjo, os dois degraus à direita são de uso exclusivo dos Latinos e os da esquerda são reservados aos Gregos e Arménios. E assim é para cada centímetro quadrado. Para qualquer alteração é necessário o acordo das três comunidades residentes. Os utensílios e as tarefas são os sinais da propriedade do local. 

Quanto à mais célebre escada que ornamenta a fachada, desde o tempo dos firmans, está ainda lá hoje porque ninguém a quer tirar por ter medo de provocar as iras dos seus vizinhos que poderiam ver nisso uma apropriação do local. Ela tornou-se assim a materialização do “statu quo”

No entanto, há decisões que provam que esta rigidez está a melhorar: as comunidades conseguiram pôr-se de acordo quanto aos trabalhos de reparação dos telhados da Basílica, há alguns anos. Atrás deste rigor há também um meio para salvaguardar este lugar único, preservá-lo de intervenções arquitectónicas descabidas. 

Para o Padre Stéphane, guardião do Convento do São Salvador, "o “statu quo” aparece como um espartilho que, numa primeira abordagem, poderá parecer pôr em evidência as divisões da Igreja, mas que na realidade é um regulamento necessário para todas as Igrejas que aí coabitam. É um lugar ecuménico que, para mim, não simboliza as divisões mas incarna à volta da mesma Ressurreição, da mesma fé, a universalidade da Igreja”

Assim, conseguindo-se recolher no meio da multidão, por vezes barulhenta, o visitante ou o fiel pode experimentar as mesmas emoções que o peregrino cruzado do séc. XII e sentir quase as mesmas realidades de um Chateaubriand do séc. XIX. 

Não será o “statu quo” o garante da Intemporalidade da Igreja Cristã neste Lugares? Numa segunda parte, este artigo abordará ao aspecto mais espirituais deste “statu quo”. 

Eva Maurer Morio

(in Patriarcado latino de Jerusalém www.pt.lpj.org)

A primeira vez

A primeira vez

É das aulas de catequese que guardo a primeira memória da Terra Santa. As páginas do catecismo vinham ilustradas com desenhos coloridos da Palestina ao tempo de Jesus. O ambiente e as paisagens eram-me estranhos e distantes e em nada me atraíam, mas aguçavam-me a curiosidade e povoavam a minha imaginação, servindo de cenário às leituras do Evangelho da Missa de Domingo.
Com o correr dos anos através das notícias do conflito israelo-árabe a Palestina foi adquirindo novos contornos para mim, como um lugar de guerra e violência e as reportagens que de lá me chegavam mostravam-me também uma terra agreste e difícil onde os israelitas iam fazendo o milagre de a transformar em terra arável e produtiva.
Era já adulto quando ouvi os primeiros testemunhos entusiasmados de peregrinos dos Lugares Santos. Porém, nunca me estimularam a ponto de me pôr a caminho para destino tão distante.
Corria o ano de 1994 quando nasceu a ideia de propor aos Servitas de Fátima, organização a que pertenço, uma Peregrinação à Terra Santa, a fim de celebrarmos os 70 anos da nossa fundação. Se o motivo parecia evidente, as razões verdadeiras ainda hoje não consigo identificar. A adesão foi grande e entusiasta. Éramos 150 os que em Novembro desse ano nos fizemos ao caminho. O programa fora corrigido com a ajuda de gente experimentada que já por lá tinha andado, mas ainda assim, seguia o itinerário tradicional proposto pelas agências de viagem. Parti com o coração cheio de sede de uma água que nunca tinha provado.
Lembro-me bem que o primeiro dia não me matou a sede. Gostei do que vi, em Jafa e Acre, com Missa no Monte Carmelo. Mas soube-me a pouco. Mas foi com o mergulhar na Galileia que tudo mudou: Nazaré, Tabor, Bem-Aventuranças, Cafarnaum… e o Mar da Galileia. Cada lugar visitado era uma experiência nova de alegria comovida. A estranheza de outrora transformava-se agora numa impressionante proximidade. Aquela terra tinha a ver comigo, com a minha vida, com aquilo que sou, com as coisas mais íntimas e mais profundas que habitam o meu coração.
Desta minha primeira passagem pela Galileia guardei dois momentos que nunca esquecerei: a subida ao Monte Tabor e a travessia de barco no Mar da Galileia. No Lugar da Transfiguração percebi finalmente a minha velha predilecção por aquela passagem dos Evangelhos e fiz minha a frase de Pedro, tantas vezes meditada: «Senhor, é bom estarmos aqui…»[1]. O Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades, em que o Jordão se transforma, parece que ali foi posto pelo Criador como uma bênção. Sereno e cheio de majestade, por ele se unem as margens separadas, dele vêm água e alimento. Tornou-se então evidente o uso que dele fez Jesus, tal é a eloquência que dali nos vem. Foi ao entardecer que largámos amarras e era já noite fechada quando regressámos. Parados a meio do Lago, evocámos a passagem da “tempestade acalmada” e a frase de Jesus «Porque temeis, homens de pouca fé?»[2] encheu o longo silêncio em que nos deixámos ficar, enquanto nos envolvia um vento morno vindo dos Montes Golan. Quando no dia seguinte deixámos a Galileia rumo ao Sul, sentia que ali ficava um bocadinho do meu coração.
Descemos ao longo do Vale do Jordão até ao Mar Morto para a partir daí subirmos a Jerusalém. A subida percorre de perto o antigo caminho dos peregrinos da Cidade Santa. Chegámos ao cimo do Monte Scopus, era já noite. Diante de mim Jerusalém! Dos minaretes vinha a toada dos mohazim convidando à oração enquanto se ouviam os sinos das Igrejas cristãs com o toque do Angelus. Fiquei mudo e estático por alguns minutos de olhos fixos no enorme domo dourado da Mesquita do Rochedo, no centro da esplanada do Templo. Dei por mim, de cara molhada, a dizer aos que estavam a meu lado: “Ainda ali não entrei e só sei que quero cá voltar.” Senti-me parte daquele povo escolhido que durante milénios, geração após geração, repetia este gesto, subindo à Cidade Santa, ao Templo do Senhor, tal como o próprio Jesus. Eram as seis da tarde.
Nos dias seguintes foi Ein Karim, onde nasceu o Benedictus[3], se continuou a Ave-Maria e se cantou pela primeira vez o Magnificat[4]; Belém, onde pude beijar o lugar do nascimento e cantar com a voz embargada «Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo Senhor»[5]; e o percorrer dos recantos da Jerusalém, velha de milénios, mas incrivelmente nova, actual, minha… cidade que é memória e sacramental… cenário verídico da história da minha salvação.
Invocar o Espírito Santo, em pleno Cenáculo, aproxima-nos da intimidade da Trindade; olhar a cidade em silêncio do alto do Dominus Flevit[6]; ajoelhar junto à pedra da Agonia no Gethsemani; seguir os passos de Cristo pela sua Via Dolorosa, tocar a rocha do Calvário e beijar a pedra do Sepulcro, misericordiosamente vazio para todo o sempre… e ficar serenamente sentado a poucos metros no «Noli me tangere»[7], como Madalena à espera do seu Rabuni
O regresso a casa foi com a memória de Emaus[8]. Que melhor maneira se poderia encontrar senão a de lembrarmos esse encontro em caminho, do Senhor com os seus? Retornar a casa com a certeza de que Ele está reconhecível no partir do pão que em cada Missa se retoma, transforma a experiência daqueles dias num compromisso de vida, numa verdadeira paixão missionária… com numa irresistível vontade de voltar e de comigo trazer todos e cada um dos cruzam a minha vida.
«Se de ti me não lembrar, Jerusalém, fique presa a minha língua…»[9]


Rui Corrêa d’Oliveira




[1] Mt 17, 4; Mc 9, 5; Lc 9, 33
[2] Mt 8, 24
[3] Lc 1, 67-80
[4] Lc 1 46-55
[5] Lc 2, 11
[6] Lc 19, 41
[7] Jo 20, 17
[8] Lc 24, 13-35
[9] Sl 137, 6