Hoje, dia 30 de Setembro, a Igreja celebra a Memória de São Jerónimo.
Na nossa Peregrinação à Terra Santa, vamos visitar o lugar onde este homem notável viveu os últimos anos da sua vida.
Refugiou-se como eremita numa gruta em Belém, a escassos metros do Lugar onde nasceu Jesus, a Gruta do Presépio.
No belíssimo texto que transcrevemos, o Papa Bento XVI, apresenta-nos esta figura maior da Igreja
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
São Jerónimo
Queridos irmãos e irmãs!
Detemos hoje a nossa
atenção sobre São Jerónimo, um Padre da Igreja que colocou no centro da sua
vida a Bíblia: traduziu-a em língua latina, comentou-a nas suas obras, e
sobretudo empenhou-se em vivê-la concretamente na sua longa existência terrena,
não obstante o conhecido carácter difícil e impetuoso que recebeu da natureza.
Jerónimo nasceu em
Strídon por volta de 347 de uma família cristã, que lhe garantiu uma cuidadosa
formação, enviando-o também a Roma para aperfeiçoar os seus estudos. Desde
jovem sentiu atracção pela vida mundana (cf. Ep. 22, 7), mas
prevaleceram nele o desejo e a intercessão pela religião cristã. Tendo recebido
o baptismo por volta de 336, orientou-se para a vida ascética e, tendo ido a
Aquileia, inseriu-se num grupo de cristãos fervorosos por ele definido quase
"um coro de beatos" (Chron. ad ann. 374) reunido em volta do
Bispo Valeriano. Partiu depois para o Oriente e viveu como eremita no deserto
de Calcide, a sul de Alepo (cf. Ep. 14, 10), dedicando-se seriamente aos
estudos. Aperfeiçoou o seu conhecimento do grego, iniciou o estudo do hebraico
(cf. Ap. 125, 12), transcreveu códices e obras patrísticas (cf. Ep.
5, 2). A meditação, a solidão, o contacto com a Palavra de Deus fizeram
amadurecer a sua sensibilidade cristã. Sentiu mais incómodo o peso dos anos
juvenis (cf. Ep. 22, 7), e advertiu vivamente o contraste entre
mentalidade pagã e vida cristã: um contraste que se tornou célebre pela
"visão" dramática e vivaz, da qual nos deixou uma narração. Nela
pareceu-lhe ser flagelado diante de Deus, porque "ciceroniano e
não-cristão" (cf. Ep 22, 30).
Em 382 transferiu-se
para Roma: aqui o Papa Dâmaso, conhecendo a sua fama de asceta e a sua
competência de estudioso, assumiu-o como secretário e conselheiro; encorajou-o
a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais
e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo fidalgas como
Paula, Marcela, Asella, Lea e outras, desejosas de se empenharem no caminho da
perfeição cristã e de aprofundarem o seu conhecimento da Palavra de Deus,
escolheram-no como sua guia espiritual e mestre na abordagem metódica aos
textos sagrados. Estas fidalgas aprenderam também grego e hebraico.
Depois da morte do
Papa Dâmaso, Jerónimo deixou Roma em 385, e empreendeu uma peregrinação,
primeiro à Terra Santa, testemunha silenciosa da vida terrena de Cristo, depois
ao Egipto, terra de eleição de muitos monges (cf. Contra Rufinum 3, 22; Ep.
108, 6-14). Em 386 permaneceu em Belém onde, por generosidade da fidalga Paula,
foram construídos um mosteiro masculino, um feminino e uma estalagem para os
peregrinos que iam à Terra Santa, "pensando que Maria e José não tinham
encontrado onde repousar" (Ep. 108, 14). Permaneceu em Belém até à
morte, continuando a desempenhar uma intensa actividade: comentou a Palavra de
Deus; defendeu a fé, opondo-se vigorosamente a várias heresias; exortou os
monges à perfeição; ensinou a cultura clássica e cristã a jovens alunos;
acolheu com alma pastoral os peregrinos que visitavam a Terra Santa. Faleceu na
sua cela, perto da gruta da Natividade, a 30 de Setembro de 419/420.
A preparação literária
e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de
muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a
cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e
graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro
Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo
Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a versão
grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as
precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores,
pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata",
o texto "oficial" da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo
Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto
"oficial" da Igreja de língua latina. É interessante ressaltar os
critérios aos quais o grande biblista se ateve na sua obra de tradutor.
Revela-o ele mesmo quando afirma respeitar até a ordem das palavras das
Sagradas Escrituras, porque nelas, diz, "até a ordem das palavras é um
mistério" (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação. Reafirma ainda a
necessidade de recorrer aos textos originários: "Quando surge um debate
entre os Latinos sobre o Novo Testamento, para as relações discordantes dos
manuscritos, recorremos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi
escrito o Novo Pacto. Do mesmo modo para o Antigo Testamento, se existem
divergências entre os textos gregos e latinos, apelamos ao texto original, o
hebraico; assim tudo o que brota da nascente, podemo-lo encontrar nos
ribeiros" (Ep. 106, 2). Além disso, Jerónimo comentou também muitos
textos bíblicos. Para ele os comentários devem oferecer numerosas opiniões,
"de modo que o leitor cauteloso, depois de ter lido as diversas
explicações e conhecido numerosas opiniões para aceitar ou rejeitar julgue qual
seja a mais fidedigna e, como um perito de câmbios, rejeite a moeda falsa"
(Contra Rufinum 1, 16).
Contestou enérgica e
vivazmente os hereges que recusavam a tradição e a fé da Igreja. Demonstrou
também a importância e a validade da literatura cristã, que se tornou uma
verdadeira cultura já digna de ser posta em confronto com a clássica: fê-lo
compondo o De viris illustribus, uma obra na qual Jerónimo apresenta as
biografias de mais de uma centena de autores cristãos. Escreveu também
biografias de monges, ilustrando ao lado de outros percursos espirituais também
o ideal monástico; traduziu também várias obras de autores gregos. Por fim, no
importante Epistolário, uma obra-prima da literatura latina, Jerónimo
sobressai com as suas características de homem culto, de asceta e de guia das
almas.
Que podemos nós
aprender de São Jerónimo? Sobretudo, penso, o seguinte: amar a Palavra de Deus
na Sagrada Escritura. Diz São Jerónimo: "Ignorar as Escrituras é ignorar
Cristo". Por isso é importante que cada cristão viva em contacto e em
diálogo pessoal com a palavra de Deus, que nos é dada na Sagrada Escritura.
Este nosso diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve
ser um diálogo realmente pessoal, porque Deus fala com cada um de nós através
da Sagrada Escritura e cada um tem uma mensagem. Devemos ler a Sagrada
Escritura não como palavra do passado, mas como Palavra de Deus que se dirige
também a nós e procurar compreender o que o Senhor nos quer dizer. Mas para não
cair no individualismo devemos ter presente que a Palavra de Deus nos é dada
precisamente para construir comunhão, para nos unir na verdade no nosso caminho
para Deus. Portanto, ela, mesmo sendo sempre uma palavra pessoal, é também uma
Palavra que constrói comunidade, que constrói a Igreja. Por isso, devemos lê-la
em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da
Palavra de Deus é a liturgia, na qual, celebrando a Palavra e tornando presente
no Sacramento o Corpo de Cristo, actualizamos a Palavra na nossa vida e
tornámo-la presente entre nós. Nunca devemos esquecer que a Palavra de Deus
transcende os tempos. As opiniões humanas vão e voltam. O que hoje é muito
moderno, amanhã será velho. A Palavra de Deus, ao contrário, é Palavra de vida
eterna, tem em si a eternidade, ou seja, é válida para sempre. Trazendo em nós
a Palavra de Deus, trazemos também em nós o eterno, a vida eterna.
E concluo com uma
palavra de São Jerónimo a São Paulino de Nola. Nela o grande exegeta expressa
precisamente esta realidade, isto é, que na Palavra de Deus recebemos a
eternidade, a vida eterna. Diz São Jerónimo: "Procuremos aprender na terra
aquelas verdades cuja consistência persistirá também no céu" (Ep.
53, 10).

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