quarta-feira, 30 de setembro de 2015

História da Custódia da Terra Santa

1. O período da fundação da Custódia da Terra Santa

Segundo a tradição, a origem da Custódia da Terra Santa data de 1217, ano em que, em Santa Maria dos Anjos, próximo de Assis, se celebrou o primeiro Capítulo Geral dos Frades Menores. São Francisco, num gesto inspirado, decidiu enviar os seus frades a todas as nações.

O mundo foi, por assim dizer, dividido em “Províncias” franciscanas e os frades, partindo de Assis, dirigiram-se aos quatro pontos cardeais. Naquela solene ocasião, não foi esquecida a Terra Santa. Entre as onze Províncias-Mães da Ordem, aparece também a Província da Terra Santa. Nos documentos é apresentada com diversos nomes: Província da Síria, da Roménia ou Ultramarina.



Esta Província era composta por Constantinopla e o seu império, pela Grécia e as suas ilhas, pela Ásia Menor, pela Antioquia, pela Síria, pela Palestina, pela ilha de Chipre, pelo Egipto e por todo o resto do Oriente.

A Província da Terra Santa, quer pela vastidão do seu território, quer pela presença dos Lugares Santos, foi sempre tida em conta com especial atenção. Foi considerada, desde o início, a “Província” mais importante da Ordem e talvez por essa razão tenha sido confiada aos cuidados de frei Elias, figura importante na fraternidade, tanto pelo seu grande talento de organização como pela sua vasta cultura. Seria interessante conhecer as várias iniciativas de frei Elias para organizar e consolidar esta Província da Ordem, tendo em conta os problemas existentes naquele ambiente em particular e a sua grande extensão geográfica.

O zelo de frei Elias, assim como as suas qualidades para governar, devem tê-lo impulsionado, durante os anos de seu mandato, a lançar as bases do apostolado franciscano em todas as regiões situadas na Bacia Sul – Oriental do Mediterrâneo.

Em 1219, o próprio São Francisco fez questão de visitar pelo menos uma parte da Província da Terra Santa. Os documentos que relatam a presença do “Pobrezinho de Assis” entre os Cruzados, sob as muralhas de Damieta, são do conhecimento de todos. Como também é conhecido o encontro de São Francisco com o Sultão Egípcio, Melek-el-Kamel, neto de Saladim o Grande. Os mesmos documentos relatam que São Francisco, depois de ter deixado Damieta, se dirigiu à Síria.

De qualquer modo, a visita de São Francisco aos Lugares Santos teve lugar entre 1219 e 1220. A propósito desta visita, Jacques de Vitry, bispo de São João de Acre (cidade conhecida como Tolemaida),escreveu o seguinte: “O mestre desses frades, que é também o fundador da Ordem, chama-se Francisco. Querido por Deus e venerado por todos os homens. Veio ao nosso exército cheio de zelo pela fé. Não teve medo de passar até ao campo dos inimigos.

Durante sua breve viagem, São Francisco indicou aos futuros missionários franciscanos o modo em que deveriam permanecer naquelas regiões e qual seria o seu campo específico de actividades. No seu espírito, a Evangelização deve ser feita amigavelmente e com extrema humildade, exactamente como ele fizera com o Sultão. Os Lugares Santos devem ser amados e venerados pela sua estreita relação com os momentos mais significativos da vida de Cristo.

Os historiadores afirmam que a partir do século XII, e especialmente a partir do insucesso das Cruzadas, o acesso aos Lugares Santos foi assegurado por uma nova estratégia em que o apostolado missionário, através da presença desarmada dos franciscanos, substituiu as expedições militares.

Quando o Papa Gregório IX, na Bula datada de 1 de Fevereiro de 1230, recomendava aos Patriarcas de Antioquia e de Jerusalém, aos Núncios da Santa Sé, a todos os Arcebispos e Bispos, aos Abades, aos Priores, aos Superiores, aos Decanos, aos Arquidiáconos e a todos os Prelados da Igreja destinatários da Bula, de acolher e favorecer, com todos os meios, a Ordem dos Frades Menores, devia ter tido a intuição de que as Cruzadas tinham falhado o seu fim e de que seria preferível e, sobretudo mais evangélico, fazer-se um esforço de convívio de diálogo com os Muçulmanos, em vez de os combater.

Deste modo, até a própria causa dos Lugares Santos poderia tirar alguma vantagem. Em todo o caso, apesar da Bula de Gregório IX de 1230 não poder ser considerada um documento oficial no que diz respeito ao reconhecimento jurídico da presença dos filhos de São Francisco na Terra Santa, ela é, no entanto, o documento que prepara esse terreno e lhes abre a possibilidade de entrarem no país para lá se instalarem

Outra data importante para a história da Província da Terra Santa é o ano de 1263. Naquele ano, sob o generalato de São Boaventura, celebrou-se, em Pisa, o Capítulo Geral. Naquela ocasião, naturalmente, discutiu-se também a Província da Terra Santa. Foi decidido circunscrever esta Província em Custódias: a Custódia de Chipre, da Síria, do Líbano, da Palestina e da Terra Santa que compreendia os conventos de São João de Acre, de Antioquia, de de Sídon, de Tripoli, de Jerusalém e de Jaffa.

A reconquista de São João de Acre por parte dos Muçulmanos, ocorrida em 18 de maio de 1291, marcou o fim do reino latino na Terra Santa. Os cristãos foram submetidos a duras provas. Os franciscanos foram expulsos da Terra Santa e obrigados a refugiar-se no Chipre, onde se encontrava naquela época a sede do Provincial. Devida a proximidade geográfica, os franciscanos nunca deixaram de mostrar interesse pelo trabalho na Terra Santa e nada foi descurado para levar avante o seu desejo de viver próximo dos Lugares Santos. Mesmo exilados da sua pátria, foram realizadas visitas privadas de cunho devocional e visitas autorizadas pela Santa Sé para manter o contacto com os Lugares Santos. Estes factos são testemunhados por documentos históricos daquela época.


Um dos primeiros gestos de benevolência cumpridos a favor dos franciscanos veio do sultão Bibars II (1309-1310) o qual lhes doou a “igreja de Belém”, embora estes, por motivo da morte repentina do sultão não tenham podido tomar posse da igreja.

Em 1322, Jaime II de Aragão, obteve do sultão Egípcio Melek el Naser a graça para que a protecção do Santo Sepulcro fosse confiada aos Dominicanos Aragoneses mas essa autorização não deu em nada.

O mesmo Jaime II, quatro anos mais tarde, em 1327 implorava novamente a graça suprema, embora desta vez não para os Dominicanos mas sim para os franciscanos.

A Bula do Papa João XXII, emitida em 9 de agosto de 1328, concedia ao Ministro Provincial residente no Chipre a licença para enviar dois frades por ano para visitar os Lugares Santos. Na realidade, já no período que vai de 1322 a 1327, alguns franciscanos prestavam serviços no Santo Sepulcro.

Em 1333 o Sultão do Egipto concedeu ao Frei Roger Guérin de Aquitania o Santo Cenáculo. Este frade, por sua vez, apressou-se a construir um convento nas proximidades servindo-se dos fundos colocados à disposição pelos Soberanos de Nápoles, Roberto de Anjou e de Sancha, sua mulher, filha de Jaime I, Rei de Maiorca. Estes dois soberanos, com muito mérito, são considerados os “instrumentos da Providência” no que diz respeito à causa dos Lugares Santos. Tiveram um papel de relevo na sua recuperação, quer pela sua influência diplomática quer pela grande ajuda financeira.

Foi graças a eles e à sua intercessão, que as autoridades muçulmanas locais concederam oficialmente aos franciscanos o direito de oficiar na Basílica do Santo Sepulcro.

O reconhecimento jurídico por parte da Santa Sé, estendido também aos outros santuários, surgiu alguns anos mais tarde, no dia 21 de Novembro de 1342, com as Bulas Gratias Agimus e Nuper Carissimae. Estas Bulas são consideradas o reconhecimento definitivo da participação dos reis de Nápoles nas longas negociações para a causa dos Lugares Santos. Além do reconhecimento oficial, a Bula de 1328 apresentava prescrições para garantir a continuidade da instituição. Com particular intuição, foi assegurado o carácter internacional da nova entidade eclesiástico-religiosa, prescrevendo que os frades poderiam ser provenientes de todas as Províncias da Ordem. Para salvaguardar a disciplina, também vinha prescrito que todos os frades, qualquer que fosse a Província a que pertencessem, uma vez nomeados ao serviço na Terra Santa, obedeceriam ao Padre Custódio do Monte Sião em Jerusalém, que era o representante do Ministro Provincial residente no Chipre.

Em 1347 os franciscanos também se estabeleceram definitivamente em Belém, próximo da Basílica da Natividade de Nosso Senhor.
Os primeiros Estatutos da Terra Santa, que remontam a 1377, previam não mais do que vinte religiosos ao serviço dos Lugares Santos: Santo Sepulcro, Santo Cenáculo e Belém. A principal actividade deste número de frades era a de assegurar a vida litúrgica nos Santuários nomeados e a assistência religiosa aos peregrinos europeus.

Num documento do ano de 1390, vem especificado que a Província da Terra Santa, com sede em Chipre, tinha também uma Custódia da Síria, que abarcava quatro conventos: Monte Sião, Santo Sepulcro, Belém e Beirut. É importante evidenciar que o documento em questão só vem confirmar uma situação que já existia há muito tempo, quer pelo número de conventos indicado, quer pela denominação do organismo religioso conhecido por Custódia de Síria. Isto talvez para não criar possíveis confusões com a denominação de Província da Terra Santa da qual ela fazia parte.

Neste primeiro período oficial da sua história, a Custódia obteve o “selo do martírio” devido ao sacrifício de muitos dos seus frades. O primeiro sangue franciscano que banhou a terra de Jerusalém foi em 1244, durante a invasão dos Carismini cuja espada trespassou um grande número de cristãos e por quem os Frades Menores foram cruelmente trucidados.

Outros, lembrados por Alessandro IV, sofreram o martírio em 1257. Nove anos depois, em Safet por volta de 1266, mais de dois mil combatentes cristãos morreram depois da ocupação da cidade por parte do Sultão Bibars. Com eles, morreram também os heróicos frades que não quiseram renegar sua fé. Em 1268 Jaffa e Antioquia também tiveram as suas vítimas franciscanas.

Novamente na Síria, em 1269, trespassados por espadas sarracenas, morreram oito frades. Conta-se que sobre o corpo de um deles, frei Corrado de Hallis, que boiava no mar, brilharam por quase três dias duas luzes resplandecentes. Em Damasco e em Tripoli, no ano de 1277, sangue cristão foi mais uma vez derramado pelas mãos armadas do Sultão Kelaun.

Acre, a última fortaleza do Reino Latino, foi assaltado pelo Sultão Melek el Ascaraf. Mais de três mil cristãos e numerosos frades sucumbiram, naquela ocasião, por causa dos sarracenos.

"Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo"

Hoje, dia 30 de Setembro, a Igreja celebra a Memória de São Jerónimo.

Na nossa Peregrinação à Terra Santa, vamos visitar o lugar onde este homem notável viveu os últimos anos da sua vida.

Refugiou-se como eremita numa gruta em Belém, a escassos metros do Lugar onde nasceu Jesus, a Gruta do Presépio.

No belíssimo texto que transcrevemos, o Papa Bento XVI, apresenta-nos esta figura maior da Igreja

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007



São Jerónimo

Queridos irmãos e irmãs!
Detemos hoje a nossa atenção sobre São Jerónimo, um Padre da Igreja que colocou no centro da sua vida a Bíblia: traduziu-a em língua latina, comentou-a nas suas obras, e sobretudo empenhou-se em vivê-la concretamente na sua longa existência terrena, não obstante o conhecido carácter difícil e impetuoso que recebeu da natureza.

Jerónimo nasceu em Strídon por volta de 347 de uma família cristã, que lhe garantiu uma cuidadosa formação, enviando-o também a Roma para aperfeiçoar os seus estudos. Desde jovem sentiu atracção pela vida mundana (cf. Ep. 22, 7), mas prevaleceram nele o desejo e a intercessão pela religião cristã. Tendo recebido o baptismo por volta de 336, orientou-se para a vida ascética e, tendo ido a Aquileia, inseriu-se num grupo de cristãos fervorosos por ele definido quase "um coro de beatos" (Chron. ad ann. 374) reunido em volta do Bispo Valeriano. Partiu depois para o Oriente e viveu como eremita no deserto de Calcide, a sul de Alepo (cf. Ep. 14, 10), dedicando-se seriamente aos estudos. Aperfeiçoou o seu conhecimento do grego, iniciou o estudo do hebraico (cf. Ap. 125, 12), transcreveu códices e obras patrísticas (cf. Ep. 5, 2). A meditação, a solidão, o contacto com a Palavra de Deus fizeram amadurecer a sua sensibilidade cristã. Sentiu mais incómodo o peso dos anos juvenis (cf. Ep. 22, 7), e advertiu vivamente o contraste entre mentalidade pagã e vida cristã: um contraste que se tornou célebre pela "visão" dramática e vivaz, da qual nos deixou uma narração. Nela pareceu-lhe ser flagelado diante de Deus, porque "ciceroniano e não-cristão" (cf. Ep 22, 30).

Em 382 transferiu-se para Roma: aqui o Papa Dâmaso, conhecendo a sua fama de asceta e a sua competência de estudioso, assumiu-o como secretário e conselheiro; encorajou-o a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo fidalgas como Paula, Marcela, Asella, Lea e outras, desejosas de se empenharem no caminho da perfeição cristã e de aprofundarem o seu conhecimento da Palavra de Deus, escolheram-no como sua guia espiritual e mestre na abordagem metódica aos textos sagrados. Estas fidalgas aprenderam também grego e hebraico.

Depois da morte do Papa Dâmaso, Jerónimo deixou Roma em 385, e empreendeu uma peregrinação, primeiro à Terra Santa, testemunha silenciosa da vida terrena de Cristo, depois ao Egipto, terra de eleição de muitos monges (cf. Contra Rufinum 3, 22; Ep. 108, 6-14). Em 386 permaneceu em Belém onde, por generosidade da fidalga Paula, foram construídos um mosteiro masculino, um feminino e uma estalagem para os peregrinos que iam à Terra Santa, "pensando que Maria e José não tinham encontrado onde repousar" (Ep. 108, 14). Permaneceu em Belém até à morte, continuando a desempenhar uma intensa actividade: comentou a Palavra de Deus; defendeu a fé, opondo-se vigorosamente a várias heresias; exortou os monges à perfeição; ensinou a cultura clássica e cristã a jovens alunos; acolheu com alma pastoral os peregrinos que visitavam a Terra Santa. Faleceu na sua cela, perto da gruta da Natividade, a 30 de Setembro de 419/420.

A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata", o texto "oficial" da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto "oficial" da Igreja de língua latina. É interessante ressaltar os critérios aos quais o grande biblista se ateve na sua obra de tradutor. Revela-o ele mesmo quando afirma respeitar até a ordem das palavras das Sagradas Escrituras, porque nelas, diz, "até a ordem das palavras é um mistério" (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação. Reafirma ainda a necessidade de recorrer aos textos originários: "Quando surge um debate entre os Latinos sobre o Novo Testamento, para as relações discordantes dos manuscritos, recorremos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Do mesmo modo para o Antigo Testamento, se existem divergências entre os textos gregos e latinos, apelamos ao texto original, o hebraico; assim tudo o que brota da nascente, podemo-lo encontrar nos ribeiros" (Ep. 106, 2). Além disso, Jerónimo comentou também muitos textos bíblicos. Para ele os comentários devem oferecer numerosas opiniões, "de modo que o leitor cauteloso, depois de ter lido as diversas explicações e conhecido numerosas opiniões para aceitar ou rejeitar julgue qual seja a mais fidedigna e, como um perito de câmbios, rejeite a moeda falsa" (Contra Rufinum 1, 16).

Contestou enérgica e vivazmente os hereges que recusavam a tradição e a fé da Igreja. Demonstrou também a importância e a validade da literatura cristã, que se tornou uma verdadeira cultura já digna de ser posta em confronto com a clássica: fê-lo compondo o De viris illustribus, uma obra na qual Jerónimo apresenta as biografias de mais de uma centena de autores cristãos. Escreveu também biografias de monges, ilustrando ao lado de outros percursos espirituais também o ideal monástico; traduziu também várias obras de autores gregos. Por fim, no importante Epistolário, uma obra-prima da literatura latina, Jerónimo sobressai com as suas características de homem culto, de asceta e de guia das almas.

Que podemos nós aprender de São Jerónimo? Sobretudo, penso, o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Diz São Jerónimo: "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo". Por isso é importante que cada cristão viva em contacto e em diálogo pessoal com a palavra de Deus, que nos é dada na Sagrada Escritura. Este nosso diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve ser um diálogo realmente pessoal, porque Deus fala com cada um de nós através da Sagrada Escritura e cada um tem uma mensagem. Devemos ler a Sagrada Escritura não como palavra do passado, mas como Palavra de Deus que se dirige também a nós e procurar compreender o que o Senhor nos quer dizer. Mas para não cair no individualismo devemos ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para nos unir na verdade no nosso caminho para Deus. Portanto, ela, mesmo sendo sempre uma palavra pessoal, é também uma Palavra que constrói comunidade, que constrói a Igreja. Por isso, devemos lê-la em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a liturgia, na qual, celebrando a Palavra e tornando presente no Sacramento o Corpo de Cristo, actualizamos a Palavra na nossa vida e tornámo-la presente entre nós. Nunca devemos esquecer que a Palavra de Deus transcende os tempos. As opiniões humanas vão e voltam. O que hoje é muito moderno, amanhã será velho. A Palavra de Deus, ao contrário, é Palavra de vida eterna, tem em si a eternidade, ou seja, é válida para sempre. Trazendo em nós a Palavra de Deus, trazemos também em nós o eterno, a vida eterna.

E concluo com uma palavra de São Jerónimo a São Paulino de Nola. Nela o grande exegeta expressa precisamente esta realidade, isto é, que na Palavra de Deus recebemos a eternidade, a vida eterna. Diz São Jerónimo: "Procuremos aprender na terra aquelas verdades cuja consistência persistirá também no céu" (Ep. 53, 10).



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Igreja europeia na Terra Santa

Europe in the Holy Land
Plenary Assembly of the Bishops’ Conferences of Europe

Israel-Palestine, 11-16 September 2015

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At the invitation of His Beatitude Fouad Twal, Latin Patriarch of Jerusalem, the annual Plenary Assembly of the Council of European Episcopal Conferences (CCEE), the assembly which brings together the Presidents of all the Bishops' Conferences representing 45 nations on the continent, will take from 11-16 September in the Holy Land.
It is the first time in CCEE's history that a Plenary Assembly is taking place in the Holy Land, in the land where Christianity was born and developed. The exceptional nature of the event is further underlined by the fact that it is the first time in the recent history of Christianity that such a large number of high-level representatives of the European episcopate are meeting there at the same time.
By accepting the invitation for the Holy Land to host their meeting, the Presidents of the Bishops' Conferences intend to undertake a pilgrimage to the very roots of Europe, of European culture.
"The meeting is in fact a pilgrimage to the places where the Christian faith was born. From this land, Jesus' disciples travelled throughout the world to bring the new message of Jesus. The Gospel arrived in Europe having set out from this land, too! When Europe goes to the Holy Land, it is going, therefore, to the place of its Judaeo-Christian roots. This area of the world has always been a crossroads of civilisation, permeated by great cultural differences and at times by strong social tensions which in the past have united and today still continue to bind Europe and the Middle East", said Mgr Duarte da Cunha, General Secretary of CCEE.
There are two central themes to the meeting: the figure of Jesus and sharing about the challenges of the Church in Europe.
At the centre of their work, the bishops will focus above all on the Person of Jesus, true God and true man. "To look at the historical Jesus who lived in this land is very important to strengthen the relationship with the living Jesus today. To look at the historical reality which is at the start of the Christian faith and to know the person of Jesus within His people, is fundamental to understanding what He said and achieved. God made man came as a member of a people, that of Israel, which links almost genetically the People of Israel to all the Christian peoples of the land", Mgr Da Cunha stated.

A good deal of time will then be devoted to listening to and sharing about the "joys and challenges" which today pervade the Church in Europe. In turn, the Presidents will report on the situation in their own countries. It will also be an opportunity for a discussion about some of the common challenges.
As well as the various celebrations in the Holy Places in Galilee, such as Capernaum, Magdala and a procession in the town of Mi'ilya to mark the Feast of the Exaltation of the Holy Cross, of particular importance will be a Prayer Vigil for the Family in the Basilica of the Annunciation in Nazareth, Saturday 12 September, led by the Prefect of the Congregation for Bishops, Cardinal Marc Ouellet, preceded by a meeting of the bishops with Catholic families from the city.
Naturally included in the meeting-pilgrimage of the Presidents of the Bishops' Conferences of Europe is a visit to the city of Bethlehem, where, for Christians, God revealed Himself and dwelt in human history. There, the participants will visit in groups different charitable works, institutions through which the Church is trying to be a neighbour to the most needy.
These charitable works are for the most part managed by and are the fruit of the insight of numerous religious Congregations working in the Holy Land. In Bethlehem, the Presidents will pay tribute to the humble and hidden work of the numerous male and female consecrated religious. In particular, the bishops will have the opportunity to listen to the testimony of the Carmelite Sisters and the Sisters of the Rosary about the life of the two new Palestinian Saints (Sister Maria Alfonsina and Sister Maria of Jesus Crucified), canonised on 17 May.
In Bethlehem, the Presidents will also meet the Custos of the Holy Land, the bishops of the Assembly of the Catholic Ordinaries of the Holy Land (ACOHL) and the representatives of other Christian denominations.
The Plenary Assembly will conclude on Wednesday 16 September with a celebration at the altar of the empty tomb of Jesus in the Basilica of the Holy Sepulchre. Also envisaged is a visit to the Israeli and Palestinian authorities. Information about these visits will be given in the course of the meeting.
From 11-14 September, the meeting will be based at the Domus Galilaeae (Road 8277 - Korazim ISRAEL) in Galilee (north Israel), while from the afternoon of 14-16 September the meeting will take place at the Notre Dame International Center (Paratrooper's Road, P.O. Box 20531, 91204 Jerusalem).
Below journalists can see some of the highlights of the programme with information about the celebrations to be broadcast through live streaming, the opportunities for interviews, the sessions at which they can participate, and other information.
Please note: the full programme for the meeting, along with the list of participants, is available at the CCEE website or in the Asset Bank(see media information) made available by the Christian Media Center.





sábado, 19 de setembro de 2015

«Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia»

25º Domingo do Tempo Comum

20 de Setembro de 2015

EVANGELHO – Mc 9,30-37


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;
mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

AMBIENTE
Já dissemos no passado domingo que a preocupação essencial de Marcos na segunda parte do seu Evangelho (cf. Mc 8,31-16,8) é apresentar Jesus como “o Filho de Deus”. No entanto, Marcos tem o cuidado de demonstrar que Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para cumprir a vontade do Pai e oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. É neste contexto que devemos situar os três anúncios feitos por Jesus acerca da sua paixão e morte (cf. Mc 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34).

O texto que nos é proposto neste domingo é, precisamente, o segundo desses anúncios. O grupo já deixou Cesareia de Filipe (onde Jesus, pela primeira vez, tinha falado da sua paixão e morte, como lemos no Evangelho do passado domingo) e está agora a atravessar a Galileia. Muito provavelmente, a próxima ida para Jerusalém está no horizonte dos discípulos e eles têm consciência de que em Jerusalém se vai jogar a cartada decisiva para esse projecto em que tinham decidido apostar. Nesta fase, todos acreditam ainda que Jesus irá entrar na cidade na pele de um Messias político, poderoso e invencível, capaz de libertar Israel, pela força das armas, do domínio romano.

Ao longo dessa “caminhada para Jerusalém”, Jesus vai catequizando os discípulos, ensinando-lhes os valores do Reino e mostrando-lhes, com gestos concretos, que o projecto do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio. O nosso texto faz parte de uma dessas instruções aos discípulos. Será que eles entendem a lógica de Deus e estão dispostos a embarcar, com Jesus, na aventura do Reino?

MENSAGEM
O texto divide-se em duas partes. Na primeira, Jesus anuncia a sua próxima paixão, em Jerusalém; na segunda, Jesus ensina aos discípulos a lógica do Reino: o maior, é aquele que se faz servo de todos.

Na primeira parte (vers. 30-32), Marcos põe na boca de Jesus um segundo anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, com palavras ligeiramente diferentes do primeiro anúncio (cf. Mc 8,31-33), mas com o mesmo conteúdo. As palavras de Jesus denotam tranquilidade e uma serena aceitação desses factos que irão concretizar-se num futuro próximo. Jesus recebeu do Pai a missão de propor aos homens um caminho de realização plena, de felicidade sem fim; e Ele vai fazê-lo, mesmo que isso passe pela cruz. A serenidade de Jesus vem-Lhe da total aceitação e da absoluta conformidade com os projectos do Pai.

Os discípulos mantêm-se num estranho silêncio diante deste anúncio. Marcos explica que eles não entendem a linguagem de Jesus e que têm medo de O interrogar (vers. 32). As palavras de Jesus são claras; o que não é claro, para a mentalidade desses discípulos, é que o caminho do Messias tenha de passar pela cruz e pelo dom da vida. A morte, na perspectiva dos discípulos, não pode ser caminho para a vitória. O “não entendimento” é, aqui, o mesmo que discordância: intimamente, eles discordam do caminho que Jesus escolheu seguir, pois acham que o caminho da cruz é um caminho de fracasso. Apesar de discordarem de Jesus eles não se atrevem, contudo, a criticá-l’O. Provavelmente recordam a dura reacção de Jesus quando Pedro, logo a seguir ao primeiro anúncio da paixão, Lhe recomendou que não aceitasse o projecto do Pai (cf. Mc 8,32-33).

A segunda parte (vers. 33-37) situa-nos em Cafarnaum, “em casa” (será a casa de Pedro?). A cena começa com uma pergunta de Jesus: “Que discutíeis pelo caminho?” (vers. 33). O contexto sugere que Jesus sabe claramente qual tinha sido o tema da discussão. Provavelmente, captou qualquer coisa da conversa e ficou à espera da oportunidade certa – na tranquilidade da “casa” – para esclarecer as coisas e para continuar a instrução dos discípulos.
Só neste ponto Marcos informa os seus leitores de que os discípulos tinham discutido, pelo caminho, “sobre qual deles era o maior” (vers. 34). O problema da hierarquização dos postos e das pessoas era um problema sério na sociedade palestina de então. Nas assembleias, na sinagoga, nos banquetes, a “ordem” de apresentação das pessoas estava rigorosamente definida e, com frequência, geravam-se conflitos inultrapassáveis por causa de pretensas infracções ao protocolo hierárquico. Os discípulos estavam profundamente imbuídos desta lógica. Uma vez que se aproximava o triunfo do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave na cadeia de poder do reino messiânico, convinha ter o quadro hierárquico claro. Apesar do que Jesus lhes tinha dito pouco antes acerca do seu caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos materiais e a sua lógica humana.

Jesus ataca o problema de frente e com toda a clareza, pois o que está em jogo afecta a essência da sua proposta. Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza, com uns no cimo e outros na base… Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos (vers. 35). Dessa forma, Jesus deita por terra qualquer pretensão de poder, de domínio, de grandeza, na comunidade do Reino. O discípulo que raciocinar em termos de poder e de grandeza (isto é, segundo a lógica do mundo) está a subverter a ordem do Reino.

Jesus completa a instrução aos discípulos com um gesto… Toma uma criança, coloca-a no meio do grupo, abraça-a e convida os discípulos a acolherem as “crianças”, pois quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai (vers. 36-37). Na sociedade palestina de então, as crianças eram seres sem direitos e que não contavam do ponto de vista legal (pelo menos enquanto não tivessem feito o “bar mitzvah”, a cerimónia que definia a pertença de um rapaz à comunidade do Povo de Deus). Eram, portanto, um símbolo dos débeis, dos pequenos, dos sem direitos, dos pobres, dos indefesos, dos insignificantes, dos marginalizados. São esses, precisamente, que a comunidade de Jesus deve abraçar. No contexto da conversa que Jesus está a ter com os discípulos, o gesto de Jesus significa o seguinte: o discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os outros, mas quando abraça, quando ama, quando serve os pequenos, os pobres, os marginalizados, aqueles que o mundo rejeita e abandona.
No pequeno e no pobre que a comunidade acolhe, é o próprio Jesus (que também foi pobre, débil, indefeso) que Se torna presente.


(in, www.dehonianos.org)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

«E vós, quem dizeis que Eu sou?»

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
13 de Setembro de 2015

EVANGELHO – Mc 8,27-35


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á».

AMBIENTE
O texto que nos é hoje proposto é um texto central no Evangelho segundo Marcos. Apresenta-nos os últimos versículos da primeira parte (cf. Mc 8,27-30) e os primeiros versículos da segunda parte (cf. Mc 8,31-35) deste Evangelho.

A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30) tem como objectivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina, em Mc 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.

Cesareia de Filipe ou Banias (Rio Dan, um dos três rios que dão origem ao Jordão)

Depois, vem a segunda parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 8,31-16,8). Nesta segunda parte, o objectivo do catequista Marcos é explicar que Jesus, além de ser o Messias libertador, é também o “Filho de Deus”. No entanto, Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. Ponto alto desta “catequese” é a afirmação do centurião romano junto da cruz (que Marcos convida, implicitamente, os seus cristãos a repetir): “realmente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39).
Cesareia de Filipe – o quadro geográfico onde o Evangelho de hoje nos coloca – era uma cidade situada no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão (na zona da actual Bânias). Tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

MENSAGEM
O nosso texto apresenta, portanto, duas partes bem distintas. Na primeira, Pedro dá voz à comunidade dos discípulos e constata que Jesus é o Messias libertador que Israel esperava; na segunda, Jesus explica aos discípulos que a sua missão messiânica deve ser entendida à luz da cruz (isto é, como dom da vida aos homens, por amor). A primeira parte do nosso texto (vers. 27-30) começa com Jesus a pôr uma dupla questão aos discípulos: o que é que as pessoas dizem d’Ele e o que é que os próprios discípulos pensam d’Ele?

A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem apenas que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 28). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade de Jesus, nem a profundidade do seu mistério.
A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Messias” (vers. 29). Dizer que Jesus é o “Messias” (o Cristo) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.

A resposta de Pedro estava correcta. No entanto, podia prestar-se a graves equívocos, numa altura em que o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos. É isso que Jesus vai fazer, logo de seguida. Na segunda parte do nosso texto (vers. 31-35), há duas questões. A primeira (vers. 31-33) é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda (vers. 34-35) é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser discípulo de Jesus.
Jesus começa, portanto, por anunciar que o seu caminho vai passar pelo sofrimento e pela morte na cruz (vers. 31-33). Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projecto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.

Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direcção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.

Jesus dirige-se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projectos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mc 1,13); por isso, Jesus responde a Pedro: “Vai-te, Satanás”. As palavras de Pedro pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projectos de Deus.

Depois de anunciar o seu destino (que será cumprido, em obediência ao plano do Pai, no dom da própria vida em favor dos homens), Jesus convida os seus discípulos a seguir um percurso semelhante… Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.
O que é que significa, exactamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projectos de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.

O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.

No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz”. Convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 35).

(in, www.dehonianos.org)


domingo, 6 de setembro de 2015

«Effathá»

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

EVANGELHO – Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

AMBIENTE
Na fase final da “etapa da Galileia”, multiplicam-se as reacções negativas contra Jesus e contra o seu projecto, apesar do rasto de vida nova que Ele vai deixando pelas aldeias e cidades por onde passa. As últimas discussões com os fariseus e com doutores da Lei a propósito de questões legais e da “tradição dos antigos” (cf. Mc 7,1-23) são uma espécie de gota de água que faz Jesus abandonar o território judeu e refugiar-Se em território pagão.

É nesse contexto que Marcos fala de uma viagem pela Fenícia, que leva Jesus a passar pelos territórios de Tiro e de Sídon – cidades da faixa costeira oriental do mar Mediterrâneo, no actual Líbano (cf. Mc 7,24). No regresso dessa incursão pela Fenícia, Jesus teria dado uma longa volta pelo território pagão da Decápole (cf. Mc 7,31). A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.

É nesse ambiente geográfico e humano que o episódio da cura do surdo-mudo nos vai situar. O gesto de Jesus de curar o surdo-mudo deve ser visto como mais um passo no anúncio desse projecto que Jesus vai propondo por toda a Galileia: o projecto do Reino de Deus.

MENSAGEM
Num lugar não identificado da região da Decápole, Jesus encontrou-Se com um surdo-mudo. As pessoas que trouxeram o surdo-mudo suplicaram a Jesus “que impusesse as mãos sobre Ele” (vers. 32). Na sequência Marcos descreve, com grande abundância de pormenores (alguns bem estranhos), como Jesus curou o doente e lhe deu a possibilidade de comunicar.
Contudo, depois de ler a narração deste episódio, ficamos com a sensação de que Marcos quer muito mais do que contar uma simples cura de um surdo-mudo… A descrição de Marcos, enriquecida com um número significativo de elementos simbólicos, é uma catequese sobre a missão de Jesus e sobre o papel que Ele desenvolve no sentido de fazer nascer um Homem Novo.

Vejamos, de forma esquemática, os elementos principais dessa catequese que Marcos apresenta:
1. No centro da cena está Jesus e o surdo-mudo (literalmente, “um surdo que tinha também um problema na fala”). Se a linguagem é um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer relação, o surdo-mudo é um homem que tem dificuldade em estabelecer laços, em partilhar, em dialogar, em comunicar. Por outro lado, num universo religioso que considera as enfermidades físicas como consequência do pecado, o surdo-mudo é, de forma notória, um “impuro”, um pecador e um maldito. Finalmente, o surdo-mudo vive no território pagão da Decápole: é provavelmente um desses pagãos que a teologia judaica considerava à margem da salvação.
Na catequese de Marcos, este surdo-mudo representa todos aqueles que vivem fechados no seu mundo, na sua pobre auto-suficiência, de ouvidos fechados às propostas de Deus e de coração fechado à relação com os outros homens. Representa também aqueles que a teologia oficial considerava pecadores e malditos, incapazes de estabelecer uma relação verdadeira com Deus, de escutar a Palavra de Deus e de viver de forma coerente com os desafios de Deus. Representa ainda esses “pagãos” que os judeus desprezavam e que consideravam completamente alheados dos caminhos da salvação.

2. O encontro com Jesus transforma radicalmente a vida desse surdo-mudo. Jesus abre-lhe os ouvidos e solta-lhe a língua (vers. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. Na história deste surdo-mudo, Marcos representa a missão de Jesus, que veio para abrir os ouvidos e os corações dos homens, quer à Palavra e às propostas de Deus, quer à relação e ao diálogo com os outros homens. O episódio lembra-nos imediatamente o anúncio de Isaías na primeira leitura: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-vos. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria” (Is 35,4-6). Jesus é efectivamente o Deus que veio ao encontro dos homens, a fim de os libertar das cadeias do egoísmo, do comodismo, da auto-suficiência, dos preconceitos religiosos que impedem a relação, o diálogo, a comunhão com Deus e com os irmãos.

3. Aparentemente, não é o surdo-mudo que tem a iniciativa de se encontrar com Jesus (“trouxeram-Lhe um surdo que mal podia falar”; “suplicaram-Lhe que lhe impusesse as mãos sobre ele” – vers. 32). O surdo-mudo, instalado e acomodado a essa vida sem relação, não sente grande necessidade de abrir as janelas do seu coração para o encontro e para a comunhão com Deus e com os irmãos. É preciso que alguém o traga, que o apresente a Jesus, que o empurre para essa vida nova de amor e de comunhão. É esse o papel da comunidade cristã… Os que já descobriram Jesus, que se deixaram transformar pela sua Palavra, que aceitaram segui-l’O, devem dar testemunho dessa experiência e desafiar outros irmãos para o encontro libertador com Jesus.

4. A sós com o surdo-mudo, Jesus realiza gestos significativos: mete-lhe os dedos nos ouvidos, faz saliva e toca-lhe com ela a língua (vers. 33). Tocar com o dedo significava transmitir poder; a saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem num ser dotado de vida divina – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus transmitiu ao surdo-mudo a sua própria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um Homem Novo, aberto à comunhão com Deus e à relação com os outros homens.

5. O gesto de Jesus de levantar os olhos ao céu (vers. 34) deve ser entendido como um gesto de invocação de Deus. Para Jesus, os grandes momentos de decisão e de testemunho são sempre antecedidos de um diálogo com o Pai. Dessa forma, torna-se evidente a ligação estreita entre Jesus e o Pai, entre a acção que Jesus cumpre no meio dos homens e os projectos do Pai. Os gestos de Jesus no sentido de dar vida ao homem, de o libertar do seu fechamento e da sua auto-suficiência, de o abrir à relação, são gestos que têm o aval do Pai e que se inserem no projecto salvador do Pai.

6. De acordo com Marcos, Jesus teria pronunciado a palavra “effathá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e desatou a língua do surdo-mudo. Não se trata de uma fórmula mágica, com especiais virtudes curativas… É um convite ao homem fechado no seu mundo pessoal a abrir o coração à vida nova da relação com Deus e com os irmãos. É um convite ao surdo-mudo a sair do seu fechamento, do seu comodismo, do seu egoísmo, da sua instalação, para fazer da sua vida uma história de comunhão com Deus e de partilha com os irmãos. O processo de transformação do surdo-mudo em Homem Novo não é um processo em que só Jesus age e onde o homem assume uma atitude de passividade; mas é um processo que exige o compromisso activo e livre do homem. Jesus faz as propostas, lança desafios, oferece o seu Espírito que transforma e renova o coração do homem; mas o homem tem de acolher a proposta, optar por Jesus e abrir o coração aos desafios de Deus.


7. No final do relato da cura do surdo-mudo, as testemunhas do acontecimento dizem a propósito de Jesus: “tudo o que Ele faz é admirável” (vers. 37). A expressão parece ser um eco de Gn 1,31 (“Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa”). Ao enlaçar este relato com o relato da criação do homem, Marcos está a dar-nos a chave de leitura para entender a obra de Jesus: a acção de Jesus no sentido de abrir o coração dos homens à comunhão com Deus e ao amor dos irmãos é uma nova criação. Dessa acção nasce um Homem Novo, uma nova humanidade. Esse Homem Novo é a “admirável” criação de Deus, o homem na plenitude das suas potencialidades, criado para a vida eterna e verdadeira.