ANO B - 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
30 de Agosto de 2016
EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23
Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de
Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é,
sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus
em geral
não comem sem terem lavado
cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as
vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram
a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos
a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de
vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam
de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de
Deus,
para vos prenderdes à tradição dos
homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a
multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar
impuro.
O que sai do homem é que o torna
impuro;
porque do interior dos homens é que
saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».
AMBIENTE
Na
primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30), o autor
apresenta Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Deslocando-se por
toda a Galileia, Jesus anuncia a Boa
Nova do Reino de Deus com as suas palavras e os seus gestos, propondo um mundo
novo de vida, de liberdade, de fraternidade para todos os homens. A sua
proposta provoca as reacções e as respostas mais diversas nos líderes judaicos,
no povo e nos próprios discípulos.
A
cena que nos é hoje proposta no Evangelho mostra-nos, precisamente, a reacção
dos fariseus e dos doutores da Lei à acção de Jesus. Pouco antes, Jesus tinha
realizado a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mc 6,34-44), propondo, com
o seu gesto, um mundo novo de fraternidade, de serviço e de partilha (o “Reino
de Deus”); e os líderes judaicos, sem coragem para enfrentar-se directamente
com Jesus e para pôr em causa a sua proposta, escolhem os discípulos como alvo
das suas críticas… Naturalmente, esses fariseus, fanáticos da Lei, vão
questionar os discípulos de Jesus acerca da forma deficiente como eles cumprem
a “tradição dos antigos”.
Para
os fariseus, a “tradição dos antigos” não se cingia às normas escritas contidas
na Lei (Torah), mas abrangia um imenso conjunto de leis orais onde apareciam as
decisões e as sentenças dos rabis acerca dos mais diversos temas. Na época de
Jesus, essa “tradição dos antigos” constava de 613 leis (tantas quantas as
letras do Decálogo dado a Moisés no Monte Sinai), das quais 248 eram preceitos
de formulação positiva e 365 eram preceitos de formulação negativa. Essas leis
– que o Povo tinha dificuldade em conhecer na sua totalidade e que tinha, ainda
mais, dificuldade em praticar – eram, para os fariseus, o caminho para tornar Israel
um Povo santo e para apressar a vinda libertadora do Messias. Vai ser,
precisamente, à volta desta temática que se vai centrar a polémica entre Jesus
e os fariseus que o Evangelho de hoje nos relata.
Quando
Marcos escreveu o seu Evangelho (durante a década de 60), a questão do
cumprimento da Lei judaica ainda era uma questão “quente”. Para os cristãos
vindos do judaísmo, a fé em Jesus devia ser complementada com o cumprimento
rigoroso das leis judaicas… No entanto, a imposição dos costumes judaicos levaria,
certamente, ao afastamento dos cristãos vindos do paganismo. A questão que era
preciso equacionar era a seguinte: o cumprimento da Lei de Moisés era
importante, para a comunidade cristã? Para que o Reino que Jesus propôs se
concretizasse, era necessário o cumprimento integral da Lei judaica? O Concílio
de Jerusalém (por volta do ano 49)
já havia dado uma primeira resposta à questão: para os cristãos, o fundamental
é a pessoa de Jesus e o seu Evangelho; não é lícito impor aos cristãos vindos
do paganismo o fardo da Lei de Moisés. No entanto, o problema continuou a
colocar-se durante algumas décadas mais, nomeadamente a propósito dos tabus
alimentares hebraicos e que os cristãos vindos do judaísmo pretendiam impor a
toda a Igreja (cf. Rom 14,1-15,6).
É,
provavelmente, a esta temática que o evangelista Marcos quer responder.
MENSAGEM
Os
povos antigos, em geral, e os judeus, em particular, sentiam um grande
desconforto quando tinham de lidar com certas realidades desconhecidas e
misteriosas (quase sempre ligadas à vida e à morte) que não podiam controlar
nem dominar. Criaram, então, um conjunto abundante de regras que interditavam o
contacto com essas realidades (por exemplo, os cadáveres, o sangue, a lepra,
etc.) ou que, pelo menos, regulamentavam a forma de lidar com elas, de forma a
torná-las inofensivas. No contexto judaico, quem infringia – mesmo
involuntariamente – essas regras colocava-se a si próprio numa situação de
marginalidade e de indignidade que o impedia de se aproximar do mundo divino (o
culto, o Templo) e de integrar a comunidade do Povo santo de Deus. Dizia-se
então que a pessoa ficava “impura”. Para readquirir o estado de “pureza” e
poder reintegrar a comunidade do Povo santo, o crente necessitava de realizar
um rito de “purificação”, cuidadosamente estipulado na “Lei”.
Na
época de Jesus, as regras da “pureza” tinham sido absurdamente ampliadas pelos
doutores da Lei. Na opinião dos rabis de Israel,
existia uma lista imensa de coisas que tornavam o homem “impuro” e que o
afastavam da comunidade do Povo santo de Deus. Daí a obsessão com os rituais de
“purificação”, que deviam ser cumpridos a cada passo da vida diária.
Um
desses ritos consistia na lavagem das mãos antes das refeições. Na sua origem
está, provavelmente, a universalização do preceito que mandava os sacerdotes
lavarem os pés e as mãos, antes de se aproximarem do altar para o exercício do
culto (cf. Ex 30,17-21). Na perspectiva dos doutores da Lei, a purificação das
mãos antes das refeições não era uma questão de higiene, mas uma questão
religiosa… Em cada momento o crente corria o risco, mesmo sem o saber, de
tropeçar com uma realidade impura e de lhe tocar; para evitar que a “impureza”
(que lhe ficara agarrada às mãos) se introduzisse, juntamente com os alimentos,
no corpo exigia-se a lavagem das mãos antes das refeições.
Na
Galileia, terra em permanente
contacto com o mundo pagão e onde as normas de “pureza” não eram tão rígidas
como em Jerusalém, não se dava demasiada importância ao ritual de lavar as mãos
antes das refeições para evitar a ingestão da “impureza”. Os fariseus vindos de
Jerusalém, testemunhando como os
discípulos comiam sem realizar o gesto ritual de purificação das mãos, ficaram
escandalizados e referiram o caso a Jesus. Provavelmente, a história serviu aos
fariseus para sondar Jesus e para averiguar a sua ortodoxia e o seu respeito
pela tradição dos antigos.
Para
Jesus, a obsessão dos fariseus com os ritos externos de purificação é sintoma
de uma grave deficiência quanto à forma de ver e de viver a religião; por isso,
Jesus responde ao reparo dos fariseus com alguma dureza… Partindo da Escritura
(vers. 6-8) e da análise da praxis dos judeus (vers. 9-13), Jesus denuncia essa
vivência religiosa que aposta apenas na repetição de práticas externas e
formalistas, mas que não se preocupa com a vontade de Deus (“este povo honra-Me
com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” – vers. 6) ou com o amor
aos irmãos. Trata-se de uma religião vazia e estéril (“é vão o culto que Me
prestam” – vers. 7), que não vem de Deus mas foi inventada pelos homens (“as
doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos” – vers. 7). Àqueles que
apostam na religião dos ritos estéreis, Jesus chama “hipócritas” (vers. 6):
interessa-lhes mais o “parecer” do que o “ser”, a materialidade do que a
essência das coisas… Eles cumprem as regras, mas não amam; vestem com
fingimento a máscara da religião, mas não se preocupam minimamente com a
vontade de Deus. Esta religião é uma mentira, uma hipocrisia, ainda que se
revista de ares muito santos e muito piedosos.
Depois,
Jesus dirige-Se à multidão e formula o princípio decisivo da autêntica
moralidade: “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar
impuro; o que sai do homem é que o torna impuro” (vers. 15). Este princípio
geral, à primeira vista enigmático e passível de várias interpretações, será
explicado mais à frente: “do interior do homem é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes,
devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá
de dentro e tornam o homem impuro” (vers. 22-23). O dito de Jesus refere-se,
naturalmente, a dois “circuitos” diversos: o do estômago (onde entram os
alimentos que se ingerem) e o do coração (de onde saem os pensamentos, os sentimentos
e as acções). Os alimentos que entram no estômago não são fonte de “impureza”;
os pensamentos e as acções más que saem do coração do homem é que são fonte de
“impureza”: afastam o homem de Deus e da comunidade do Povo santo.
Na
antropologia judaica, o “coração” é o “interior do homem” em sentido amplo; é
aí que está a sede dos sentimentos, dos desejos, dos pensamentos, dos projectos
e das decisões do homem. É nesse “centro vital” de onde tudo parte que é
preciso actuar. A verdadeira religião não passa, portanto, pelo cumprimento de
regras externas, que regulam o que o homem come ou não come; mas passa por uma
autêntica conversão do coração, que leve o homem a deixar a vida velha e a
transformar-se num Homem Novo, que assume e que vive os valores do Reino. A
preocupação com as regras externas de “pureza” é uma preocupação estéril, que
não toca com o essencial – o coração do homem; pode até servir para distrair o
crente do essencial, dando-lhe uma falsa segurança e uma falsa sensação de
estar em regra com Deus. A verdadeira preocupação do crente deve ser moldar o
seu coração, a fim de que os seus sentimentos, os seus desejos, os seus
pensamentos, os seus projectos, as suas decisões se concretizem, no dia a dia,
na escuta atenta dos desafios de Deus e no amor aos irmãos.
(in, http://www.dehonianos.org)